Raul Cânovas Paisagismo "


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Contos A árvore da sabedoria por Raul Cânovas Observando com atenção a floresta, ou até um jardim antigo, vamos descobrir sempre uma árvore anosa que desempenha a função de decana nesse agrupamento vegetal. Se você olhar bem, vai perceber que ela, da mesma forma que um velho patriarca, tem virtudes e essências que a transformaram em uma espécie de líder, de ícone viva que serve de referência a todo o conjunto que cresce a sua volta. Ela é justa, quando usa apenas a água e o alimento necessário para seu sustento; Ela é prudente, moderando as raízes para não abarcar o desnecessário; Ela é valente, porque suporta confiante o perigo das tormentas. E também ela é humilde, porque, embora maior e poderosa, sabe que depende do apoio das outras árvores para viver. Pois é, as virtudes fundamentais que nos tornam sapientes estão aí, numa simples paisagem. A Confissão de um Entusiasta por Raul Cânovas Não sei o porquê, mas estou sentindo uma vontade enorme de escrever sobre algo um tanto abstrato, algo que não se enxerga, nem se toca, nem se cheira; quero falar sobre entusiasmo, sobre aquela disposição de espírito, que se você e eu temos, nos motiva todos os dias a fazer alguma coisa; eu, como você sabe, encho minha vida de formas e cores que se transformam em jardins; não sei o que você faz, nem quais são seus interesses e paixões, mas imagino que como eu, você deve ter uma vocação, um pendor que excita seu íntimo, motivando sua existência. Claro que às vezes, bate um desânimo com tanta força, que toda aquela inspiração se rompe em mil pedaços, transformando o que era vontade em desalento, mas isso passa, mesmo porque nosso coração apesar de trabalhar sem descanso, nem folgas, precisa ser animado e cutucado de tanto em tanto, com as nossas motivações, mesmo que absurdas ou travessas, mas inflamadas pela nossa espontaneidade. Pois é, a vida é isso, puro entusiasmo e algumas pitadas de devaneio, não pode ser totalmente real tem que ser também sonho, porque é com este sonho que se constrói o que existe de verdadeiro, e se sonharmos de maneira sincera e transparente, certamente estaremos saltando da utopia para o que efetivamente existe. É assim que faço meus jardins; quando projeto não distribuo no terreno apenas árvores e canteiros com flores, eu desabo minhas emoções, eu liberto minhas idéias com a mesma alegria apaixonada do adolescente que ama pela primeira vez. O entusiasmo é assim, pode contaminar carpinteiros e juízes, inventores e figurantes; não importa o que fazemos, o que realmente é importante, é a maneira como você realiza aquilo que o destino lhe propõe: sem pressa, pois o entusiasta precipitado não saboreia sua obra, mas também ininterruptamente, porque o entusiasmo deve fluir em nossas veias para que a monotonia não invada nossa alma. Traçando Laços Entre a Psique Humana e o Mundo Vegetal por Raul Cânovas É muito comum por diferentes motivos, fazer comparações entre pessoas e animais, às vezes pelo aspecto físico, outras pela maneira de andar e assim por diante. Quantas vezes você já ouviu alguém dizer que fulano, por exemplo, anda como um macaco, ou que sicrano está gordo como um elefante? As semelhanças que tentamos encontrar não param por aí... quando vemos alguém bonito, costumamos falar que ele (a) é um gato(a); quando a inteligência falta, um burro, e se é forte, um cavalo. Enfim, nossas aparências e nossas virtudes estão sempre ligadas a um verdadeiro zoológico de exemplos. Mas você já pensou em traçar analogias entre a psique humana e o mundo das plantas? Bom, se você nunca fez esse tipo de abordagem, a partir de agora está convidado a mergulhar em um mundo um pouco mágico onde, - prestando atenção - vamos descobrir que assim como nós, as plantas percorreram um caminho árduo em direção ao aprimoramento e à individualização, atingindo um tal grau de harmonia que possibilitou o nosso aparecimento, e que ainda hoje, faz-nos buscar em nós mesmos a perfeição que nelas está naturalmente presente. Durante o tempo todo, essa comunidade verde lutou de uma maneira feroz para poder se estabelecer no planeta, especialmente nas eras remotas, quando na terra não existiam animais, nem sequer seres humanos; naquela época, quando o ar era ainda irrespirável e a terra se sacudia em meio a terremotos constantes e erupções vulcânicas, uma alga inconformada com seu destino de ir e vir ao sabor da maré, sem qualquer destino foi valente o bastante para agarrar-se firmemente contra um rochedo e aí se fixar, desafiando o fardo que lhe impusera vida de errante, sem algum destino ou descanso. Mudou seu karma: virou musgo, mas também a partir desse momento acomodou-se e passou a viver da lembrança de seu único ato heróico, sem nunca mais tentar outro grande salto. Qualquer semelhança com outras histórias cujos protagonistas sejam homens ou mulheres com certeza não é uma mera coincidência; quem é aquele que não conhece alguém que já tenha vivido uma experiência parecida, e que depois de um grande feito, não se tenha acomodado, a partir daí passando a viver de glórias passadas? Parece um pouco fabulístico tudo isso, mas criar uma folha, os talos, aquele emaranhado de raízes, inventar a flor... tudo isso exigiu milhões de anos de reflexão vegetal, e se alguém concluiu que pensar é existir, também podemos deduzir que crescer é viver e ser. As plantas nos mostram isso depois de haver trilhado um caminho de evolução que tem mais de dois bilhões de anos; naquela época surgiram as primeiras algas, que de tão primitivas eram ainda azuis e vermelhas, para conquistar o verde demoraram um bilhão de anos e para dar aquele grande salto, saindo da água e se agarrando as rochas para se fazerem os primeiros musgos, os primeiros limos, tiveram que lutar por mais 400 milhões de anos. É muito tempo, muito tempo e muita luta, muita perseverança, muita paciência se comparado com o tempo que nós humanos, estamos aqui nesse planetinha verde. E apesar disso evoluímos rápido demais, em um ritmo frenético e irritante. Esse desenvolvimento da raça humana faz com que homens e mulheres muitas vezes não consigam acompanhar as progressivas mudanças do sistema, é como se fôssemos integrantes de uma caravana que não para de andar e onde nos resulta impossível saber o destino, porque não enxergamos os líderes desta multidão de caminhantes, mas sentimos uma necessidade incontida de continuar, mesmo ignorando o porquê, e para quê, seguimos sempre firmes, talvez porque alguém tenha nos informado que a vida é assim mesmo. A vida é assim mesmo, mas há momentos em que extenuados precisamos parar; e geralmente só paramos quando estamos enfraquecidos e sem forças, quando não mais podemos acompanhar o andar de nossos companheiros. É aí que abandonamos a caravana, fazemos como os bulbos das tulipas que perdem suas folhas com a chegada da neve, nos fingimos de mortos e esperamos que o sol apareça de novo para nos dar vida e calor, que nem essas tulipas que entenderam a morte, mas que também apreenderam como se volta à vida passando a conviver com o frio e o calor, com o sol que possibilita o milagre da cor nas suas flores e com a escuridão que guarda o bulbo. Talvez precisássemos aprimorar um pouco mais essa técnica e somar dados para que nossa consciência um dia aprenda a ressurgir, explodindo vontades mesmo depois de um período de escuridão. Árvore Amiga por Vasco de Castro Lima Árvore amiga, o céu azul te abraça e o sol te beija, noiva da poesia! Livro de folhas verdes...Verde taça que acolhe em seu cristal a chuva fria! Tua vida é uma glória que não passa, Deusa da Primavera e da Alegria! É um catecismo de beleza e graça que nos dá mil exemplos cada dia! Árvore amiga, tua seiva arqueja quando a vida em teu âmago viceja, Para te encher de folhas e esplendores! E, quando a Natureza te engrinalda, tu vibras como um poema de esmeralda, em que as rimas são pétalas de flores!... VASCO DE CASTRO LIMA – nascido a 22/12/1905, em Lavrinhas/SP – Poeta; jornalista e professor. Bacharel em Ciências e Letras. Agremiações a que pertence: Grupo Cruzeirense de Cultura e União Brasileira de Trovadores. Bibliografia: “Cascata de Ilusões”, “Inquietude”, “Correnteza”, “Vergel do Paraíba”, “ Lágrimas da Alvorada” e “Festa de Luz” – poesias; “Trovas de Minha Ternura”; “Estrada de Ferro Sul Minas” – estudo histórico, além de outros. As árvores do mal por Raul Cânovas Nem todas as árvores são generosas e salutares, mas deveriam ser; mesmo que a natureza seja dadivosa com suas eternas e energéticas oferendas, há uma exceção. Uma espécie de desvio, quase sinistro dessa regra geral é de oferecer vitalidade com fulgores de esmeraldas. Sabemos que essa sabedoria que se carrega sem certezas, que em cima das pilastras de madeira se equilibram frondes que brincam de trocar luzeiros com o sol e que se multiplicam ao infinito. No entanto, lá embaixo no mais profundo do vales onde corre o Rio Aqueronte, crescem nas margens árvores disformes e cheias de vícios em lugar de folhas; que são alimentadas por águas amargas e borbulhantes que desembocam no próprio tártaro infernal. Esses Aqueróis, como foram batizados, pelos infelizes que habitam essa depressão conhecida como Érebo, não possuem vigor algum, seu sustento é a força que surrupia do alento que emanam as auras alheias e de forma egoísta e traiçoeira vampirizam os incautos que caem para sempre em uma modorra apática, ficando indiferentes as floradas dos Aqueróis que desabrocham murchas, apesar da tentativa infame de incorporar a energia dos outros. É uma história de meter medo e de criar angústias, mas apesar da gravidade e até do risco de sermos sugados por esses parasitas, acredito no talento do bem e aposto nos JARDINEIROS que, sempre atentos saberão escolher as mudas mais sadias para formar bosques de infindáveis verdes... bosques de inacabáveis virtudes. As flores de acácia por Raul Cânovas Athotis cochilou por poucas horas, o suficiente para recuperar forças depois de um dia terrível. Nakhti seu grande amor, a prometida que iria participar de sua vida, morrera depois de um acidente no atelier de Taanakht, onde esculpia vasos de alabastro. Enquanto Athotis dormia, sonhou com acácias. Sabia que sonhar com essas flores significa augúrios bons, mas como poderia ter alguma coisa boa, auspiciosa, se ele acabara de perder um pedaço de seu futuro feliz e apaixonado? A cerimônia fúnebre tinha começado no templo de Medinet Habu. Alguns amigos agitavam respeitosamente folhas de palmeiras, enquanto o sacerdote preparava o corpo de Nakhti. Athotis perguntou ao encarregado do ofício sacro se podia ajudar em alguma tarefa e ele respondeu que sim, que ele poderia colher alguns galhos de acácias em flor, assim garantiria a imortalidade da alma de sua doce Nakhti, e assim ele compreendeu a visão que tivera durante o sono. O jovem egípcio percebeu que essas flores perfumadas que tanto faziam a alegria de Tiy, seriam a partir desse momento um símbolo de seu casto amor. Bibliografia de Domingo Sarmiento Em 1943, aos 55 anos de seu falecimento, a Conferência Interamericana de educação (integrada por educadores de toda América) se reuniu no Panamá e estabeleceu o 11 de setembro como Dia do Professor. Nenhuma data é mais oportuna para celebrar o dia do professor no continente americano, dia em que passou para a imortalidade Domingo Faustino Sarmiento. E se falarmos de datas, este professor dos professores nasceu em 15 de fevereiro de 1811, na província de San Juan - Argentina, em um humilde lar, que após cem anos de seu nascimento foi transformado em museu histórico. Filho de dona Paula Albarracín e de dom José Clemente Sarmiento, o desejo de aprender e ensinar o consagrou desde muito jovem, aprendeu a ler aos quatro anos e começou aos cinco na escola "Escuela de la Patria" em sua cidade natal. Aos quinze anos fundou sua primeira escola em San Francisco del Monte de Oro (província de San Luis), onde já desempenhava como professor de um grupo de alunos que superava sua idade. Este homem ilustre chegou a ser um grande lutador e uma das figuras mais importantes da história latino-americana, foi professor, subtenente de milícias, escritor, jornalista, senador, ministro, diretor geral de escolas, sociólogo, diplomata, governador e por fim, foi eleito presidente da Argentina. Um verdadeiro ativo militante político, sendo levado várias vezes ao exílio, principalmente devido a sua oposição ao ditador Juan Manuel de Rosas (1793-1877) e ao caudilho riojano Facundo Quiroga (1788-1835). Suas atividades no Chile foram notáveis, tanto no ensino (lhe confiada à organização da primeira escola de magistério da América do Sul) como jornalista (publicou artigos no El Mercurio, de Valparaíso e no El Progreso, de Santiago). Visitou também Estados Unidos e Europa, onde publicou obras literárias e conheceu pedagogos e escritores. Em San Juan fundou o jornal El Zonda. Sua obra literária é destacada por Facundo, inspirado no caudilho riojano Facundo Quiroga; Recuerdos de Provincia, de corte autobiográfico; Viaje, onde conta suas experiências pelo mundo; Vida de Dominguito, que narra a vida de seu filho adotivo que foi morto no Paraguai; Educación Popular; Método de Lectura Gradual e Civilización e Barbarie. Como governador de sua província natal, decretou a lei de ensino primário sendo obrigatório, já aos cinqüenta e sete anos ocupou a Presidência da República (1868 e 1874), época em que promoveu suas idéias liberais que centraram em princípios democráticos, as liberdades civis e a oposição aos regimes ditatoriais. Como presidente, Sarmiento lutou por tudo que fora a razão de sua existência, acreditando na educação e na cultura de seu povo. Além de sua vasta obra educativa e do sucesso da elevação da população escolar (de trinta mil para cem mil alunos), destaca-se também a criação de numerosas escolas primárias, a Academia de Ciências, a Escuela Normal de Paraná (onde contratou professores estrangeiros), a Universidad Nacional de San Juan, a Facultad de Ciências Físicas e Matemáticas, a Biblioteca Nacional de Maestros e o Observatorio Astronómico de Córdoba. Interessado na formação profissional das Forças Armadas fundou a Escuela Naval e o Colégio Militar. Promoveu também o desenvolvimento do comércio, da agricultura e dos transportes. Realizou o primeiro censo demográfico, incentivou a entrada de imigrantes, modernizou o porto de Buenos Aires, contribuiu para o desenvolvimento das telecomunicações e contratou cientistas estrangeiros. Já em 1881, como superintendente geral das escolas, fundou a revista El Monitor de la Educación Común, referência fundamental para a educação argentina. Na primeira vez que ficou exilado no Chile, teve uma filha, Ana Faustina (que casou-se com Julio Belín e teve um filho, Augusto Belín Sarmiento). Ela acompanhou o pai em seus últimos dias. Em seu segundo exílio, Sarmiento casou-se com Benita Martinez Pastoriza, uma viúva da alta sociedade chilena, e adotou seu filho Domingo Fidel, mais conhecido como Dominguito, que morreu na guerra contra o Paraguai. Por questões de saúde, Sarmiento viajou a Assunção – Paraguai, onde escreveu seus últimos artigos jornalísticos. Faleceu tão pobre como havia nascido. Causar delícias intensas por Raul Cânovas Às vezes me pergunto até que ponto o prazer influencia o trabalho de alguém que profissionalmente tem uma atividade criativa? Será que o fundamento da criatividade é proporcionar o prazer, alegria e conforto ao cliente? Eu sinceramente acredito que isso seja pouco. O hedonismo excessivo se contenta apenas com o requinte, transformando tudo em um mar de rosas com um fundo azul, é pobre conceitualmente falando. Qual seria a vantagem de ter um jardim apenas bonito, abarrotado de plantas caras, mas vazio de sugestões, insípido, sem aquele estímulo que nos obriga a procurar de forma sensata aquilo que algum dia nos pode transformar em sábios, não apenas através do saber, mas especialmente de entender o que existe além de um jardim. Crescimento por Raul Cânovas Eu sei que é importante aprender técnicas e adquirir conhecimentos acadêmicos, também tenho consciência de que é impossível viver longe do saber científico e das tecnologias avançadas. Mas de que vale aumentar minha sabedoria, entendendo inclusive o mistério das estrelas, se esqueço de cuidar de meu contorno. Leone Battista Alberti que no século XV foi músico, filósofo e arquiteto, falava que “A observação da natureza exige necessariamente a reflexão em cima de um jardim”. Por isso, hoje mais do que nunca, não devemos perder contato com aquilo que nos rodeia, e se em nossa volta um jardim estiver em pleno desenvolvimento, poderemos meditar sobre nosso próprio crescimento. Meu Amigo : Momo da Silva por Raul Cânovas O Momo era um personagem, uma criatura rara que fazia parte da tribo dos inconformados, carregava no próprio nome a lembrança eterna do momento em que fora batizado com um nome que não tinha nada a ver com ele. Nascera em pleno Carnaval no morro da Mangueira, foi um alvoroço, nem tanto pelo parto feliz, mas especialmente porque sua vinda ao mundo acontecera exatamente no dia do desfile, muita correria, atrapalhação, a parteira na avenida. De nada tinha adiantado a mãe do Momo vestir a ceroula do marido e pôr o chapéu dele ao contrário durante dias para adiantar o parto, até “cabeça de galo” a pobre mulher bebeu para que o filho pudesse sair do ventre mais cedo, não adiantou nada. Momo surgiu berrando ao compasso de “mamãe eu quero”, que era a marcha popular daquele ano, em pleno sábado de folia. Trinta dias depois, quando foi levado para a pia do batismo, contam que chorou muito durante a cerimônia, os que estavam presentes comentavam que bebê quando chora no batizado não morre criança, mas o meu amigo tem outra explicação: quando ouviu seu próprio nome pela primeira vez não resistiu; Momo da Silva era demais! Isso não era identidade, era em epíteto, um adjetivo, um estigma para o resto de sua vida. O mais engraçado da história, (engraçado porque era com ele, não com a gente), é que na medida em que Momo começa a compreender as coisas, menos gostava de carros alegóricos, cordões e de fantasias; já adolescente, com treze para quatorze anos, fugia da folia, para desgosto do seu Neco, que era notável no reco-reco; com o aparecimento dos primeiros fios da barba, Momo tomou a decisão de não ser mais carioca e rumou para São Paulo, cidade tida como séria, onde não existia espaço para escolas de samba e barulho. Ele foi morar em um bairro distante e pacato e com o tempo comprou uma casa, nada de luxos, mas grande e com um bom jardim; plantou muitos coqueiros, talvez para matar as saudades de menino, hoje vive da produção de cocos, mais de dez mil frutos por ano, também faz jardins sempre tropicais e coloridos. A única coisa que nunca conseguiu, foi mudar o seu nome, hoje resignado mata muitas vezes a curiosidade do povo contando a origem de tudo, só que quando chega esta época de folia e de desfiles fica meio recluso no meio do coqueiral, e se ouve mesmo que de longe alguma marchinha ou um samba carnavalesco, fica muito aborrecido, porque apesar de se chamar Momo não é nenhum rei da folia e sim um senhor de seu próprio destino. O Começo por Raul Cânovas Quando ainda era um aprendiz de jardineiro, um novato apenas na arte de entender o mundo vegetal, o destino deu uma empurrada na minha vida e me colocou no mesmo caminho de Pedro; Pedro ou Pedrito como era conhecido por todos. Era um homem simples que trabalhava empregado por meu pai, cultivando e formando jardins. Era simples, mas não ingênuo, porque a vida tinha lhe dado uma série de conhecimentos que embora empíricos, o tinham ajudado muito no velho ofício de escapar dos infortúnios. Lembro que certa vez, por coincidência início de ano, Pedrito me contou que esse era um espaço de tempo ideal para estrear uma porção de terra, e originar nela um jardim que mais tarde poderia ser não apenas bonito e chamativo, mas também e, sobretudo, pleno de sensações; ele me ensinou que era exatamente nesse instante que devíamos colocar toda nossa atenção para que dele mais tarde, brotassem as mudas sadias e robustas. Enquanto arava a terra, ele imaginava esse jardim cheio de novidades que iriam aparecer, até independente da imaginação do paisagista, mas que seguramente despontariam de maneira gostosa porque o solo tinha sido lavrado com muito cuidado, com muito esmero. Imagino que assim deva ser estas primeiras semanas, inaugurando o ano com a fé de quem semeia um campo fértil, que foi sendo enriquecido pelas experiências, não importa se boas ou más, mas enfim, válidas para errar menos no futuro. Como num jardim bem arquitetado é bem provável que surjam coisas boas, que nos ajudem no nosso crescimento. Pedrito sempre falava que nos jardins que ele plantava só nasciam plantas boas, com flores sadias e às vezes até com frutos de sabor inigualável. Crescimento Na natureza tudo se desenvolve; no caso das plantas este progresso é lento, se você observar uma paineira ou um jacarandá vão lhe parecer imóveis, quase que paralisados no tempo e no espaço; apesar desta primeira impressão note que não são poucas as árvores que abrem suas folhas assim que os primeiros raios de sol aparecem, contraíndo-as na medida em que a noite se aproxima. Não existem plantas estáticas, os vegetais progridem numa constante mutação, seja por fatores climáticos ou pela necessidade de garantir a perpetuação da espécie. Nós seres humanos, crescemos de maneira mais evidente, não apenas através do tamanho individual, mas também intelectualmente e até mesmo que lentamente, na ética do grupo social ao qual pertencemos; assim como os manacás que florescem simultaneamente em florestas localizadas em pontos distantes entre si, grupos de homens e mulheres organizados comunitariamente em pontos diferentes do planeta tem metas muito parecidas; vejam por exemplo que enquanto os chineses inventavam o relógio mecânico, a muitos quilômetros de distância os árabes inventavam a bússola, e enquanto Diego Velazquez pintava com impressionante realidade a tela conhecida como " As meninas" na Espanha, um jovem conhecido como Caravagio, em Roma, deixava uma escola caracterizada pela luz e pelos detalhes; os artistas pensavam de uma maneira também bastante parecida, como vocês podem perceber e em lugares diferentes. Agora, vejam que cada etapa de nosso crescimento tem seus atrativos, uma árvore quando pequena antes de se tornar majestosa atingindo sua altura máxima, pode deixar sua copa mais próxima de nossos olhos, permitindo que a contemplemos; ela aumentará seu volume na medida em que observe ao seu redor, aprendendo com aquelas mais velhas e sabidas a se alimentar e atrair os pássaros com suas flores; quando já anosa e respeitável poderá contemplar a mata, desde uma privilegiada altura e servirá de modelo para outras da mesma espécie que queiram expandir sua existência no meio da mata. Sem dúvida você e eu somos bastante parecidos com estas árvores, podemos aprender quando jovens e servir de exemplo na maturidade. O importante é não apressar nosso crescimento, deixar fluir. As árvores mais belas são aquelas que ampliaram suas copas devagar, e nós com certeza, seremos mais felizes se com paciência esperarmos o momento oportuno para colher destas árvores os frutos maduros e gostosos. O cotidiano, aqui na Terra por Raul Cânovas Há tempos aprendi que a luta faz parte de nosso dia-a-dia, não estou falando, obviamente, de guerras ou batalhas, mas sim deste combate diário para conquistar espaços e poder. Talvez, essa minha mania de contemplar a mata e os jardins um pouco mais elaborados, tenha me dado subsídios para compreender que vivemos em um mundo em permanente conflito. Se prestarmos atenção, perceberemos que na floresta ou até no meio de uma praça, existe um duelo constante, entre árvores e palmeiras, por um espaço que lhes permita sentir o calor do sol, até a mais insignificante das trepadeiras peleja para escalar um tronco e descobrir a luz. São coisas da vida... que por vezes ferinas demais. O jardim como exemplo por Raul Cânovas Entendo a importância de aprender técnicas e adquirir conhecimentos acadêmicos, também tenho consciência de que é impossível viver longe do saber científico e das tecnologias avançadas. Mas de que vale aumentar minha sabedoria, entendendo inclusive o mistério das estrelas se esqueço de cuidar de meu contorno. Leone Battista Alberti* (1404-1472), que no século XV foi músico, filósofo e arquiteto, dizia: “A observação da natureza exige necessariamente a reflexão em cima de um jardim”. Por isso, hoje mais do que nunca devemos manter contato com aquilo que nos rodeia, e se em nossa volta um jardim estiver em pleno desenvolvimento, podemos meditar sobre nosso próprio crescimento. *Arquiteto e literato, grande teórico da arte renascentista; Secretário do Papa (1432) e pioneiro nos estudos de planejamento urbano. O pinheiro por testemunha por Raul Cânovas Como era de costume, Aarón tinha deixado para trás centenas de pegadas no atalho areento, antes mesmo do Sol aparecer. Precisava chegar cedo como sempre, na vila do rico fariseu e cuidar do jardim que contornava o palácio. Era início de primavera e as giestas começavam a soltar aquele aroma, que deixava Jerusalém tão agradavelmente perfumada. Enquanto andava, imaginava o contraste das flores imaculadamente brancas dessa planta, com o vermelho das anêmonas. Março sempre tinha sido um mês redentor, transformando o deserto em um jardim multicolorido, desde Negev até Nazaré. Malvas, papoulas e linheiros cresciam espontaneamente sob as copas dos choupos, que eternamente vestidos por uma casca alva, pareciam querer competir com os coentros e com as mostardas, que apesar das tímidas floradas inundavam a trilha com suas fragrâncias. Jeová tinha sido mais uma vez misericordioso, e mostrava sua compaixão pintando os campos de verde, esses mesmos campos que tremeram com o frio do inverno. Aarón estava muito feliz. Sabia que podia mostrar sua habilidade de jardineiro com a ajuda do Sol morno da estação, além do mais, tinha uma porção de bulbos guardados que estavam esperando um canteiro de terra fofa e uma boa ducha para despertar a vida. Como ocorria todos os dias, a trilha se abria para um caminho um pouco mais largo, um carreiro por onde passavam veículos de todo tipo, era aí que Aarón virava à direita para andar até a cidade, lá no vale. Ele não precisava tomar mais fôlego, agora era só aproveitar a decida, e em instantes chegar até o portão que dava para o jardim da casa de seu patrão. Mas de repente, ali na sua frente surgia no meio dos pedriscos, uma pequena planta de folhas muito verdes. Não era um lírio, nem uma tulipa silvestre, muito menos um desses capins que emergiam com os primeiros calores. Aproximou-se e de perto viu que era um minúsculo pinheiro que brotara no local impróprio; sim, porque aí mais cedo ou mais tarde acabaria pisoteado pelos cavalos ou esmagado pelas rodas de uma carruagem. Com muito cuidado, o experiente jardineiro tirou a muda do chão, e erguendo-se olhou para os lados procurando um pedacinho de terra que oferecesse condições e segurança. Cinqüenta passos adiante, protegidos pela sombra de uns arbustos, Aarón cavara com as mãos um buraco com um palmo de largura e um palmo de profundidade, esmagou entre os dedos a terra empedrada até lhe causar feridas. Assim, com um pouco de seu próprio sangue e um solo fofo o pinheirinho de aleppo foi plantado. Com o passar do tempo foi crescendo com um estranho vigor e até se acostumando com os caminhantes que desfilavam em direção à cidade. Com alguns se alegrava mais, ficou triste quando seu protetor deixou de passar. Nunca soube que Aarón morrera, não entendia a morte, mesmo assim perdeu um pouco de folhas (isto é, agulhas porque os pinheiros não têm folhas). Séculos mais tarde, já robusto, era uma referência para todos, fora escolhido muitas vezes para dar sombra e até energia. Teve uma vez que um moço parou sob sua copa, para falar a uma multidão de seu Pai e de seu amor infinito. Hoje mais do que duplamente milenar, o velho pinheiro de aleppo contempla Jerusalém desde o alto da colina, e apesar de tudo o que aprendeu, não compreende o porquê as pessoas sangram por causa das feridas causadas por disparos de fuzil ou por minas enterradas. Por que será que não enterram bulbos de anêmonas como fazia o velho Aarón? Por que será que não fazem sangrar as mãos para ajudar a viver, como fez seu inesquecível amigo jardineiro. Lá está ele majestoso e melancólico, esperando por alguém que lhe pendure umas bolas vermelhas e uma estrela de Natal. Os deuses, a chuva e a primavera por Raul Cânovas O que será que a chuva irá me trazer? Qual é a promessa dessas gotas mornas que a primavera transpira? Os Astecas veneravam Tlaloc, deus da umidade, dos raios e tormentas; ele casou com Chalchiutlicue, sua irmã, sempre vestida com túnicas de jade que cuidava dos mares e dos lagos, e também dos filhos, que gerava em forma de nuvens. A serpente de ouro o acompanhava, simbolizando o relâmpago e o trovão, viviam em Tlalocan, um paraíso aquático onde brotavam milhares de ninféias amarelas. As pessoas sentiam por eles uma emoção confusa que misturava reverência e temor, já que às vezes, enfurecidos, disparavam granizo e inundavam os campos de milho; por isso, por pura precaução faziam oferendas com pulque e pamonhas na tentativa de minimizar a ira desse casal sobrenatural. Mas tudo isto foi há muito tempo, em uma época em que éramos temerosos frente ao desconhecido e ao incerto; hoje, sabidos e cheios de convicções, não damos a mínima para essas histórias fabulosas e os próprios deuses acabrunhados e desmotivados esquecem de fazer chover, e quando lembram alagam tudo, meio que desajeitadamente, quase que de forma burocrática. Perdeu a graça, justo agora no início da primavera que precisamos de inocência e de amores ardentes e também de um pouco do beijo molhado e do orvalho matutino, eles deram as costas e se negam a obrar coisas divinas. Eu tive uma idéia, mas preciso muito de sua ajuda; não apenas de sua ajuda, necessito algo assim... como um crédito e também uma espécie de prazo durante o qual você não irá me rotular de brega ou de arcaico. A idéia é a seguinte: quando você vir uma borboleta colorida, emociona-se, quanto maior forem suas asas e mais pigmentos estejam nelas concentrados, mais comovido você deverá ficar e se por acaso ela pousar na sua cabeça, aí se torna obrigatória a paixão; vale também ficar acocorado para perceber de perto o perfume de um canteiro de cravinas e levantar-se em seguida para sentir a tontura. Mas o bom mesmo será dividir uma goiaba com alguém, que como você compreenda as borboletas e goste de flores perfumadas e não tenha medo de parecer antiquado. Ah sim! O prazo; ele termina no final da primavera quando Tlaloc e Chalchiutlicue se retiram deixando um caminho livre para outros deuses, mais enxutos e menos apaixonados. Paisagismo Brasileiro, um Novo Paradigma por Raul Cânovas Talvez seja interessante começar este ensaio com uma pergunta: Qual é a diferença entre país e nação? Para muitos não existe um distanciamento significativo entre as duas definições, no entanto os conceitos são diferentes. Entendemos por país uma extensão de terra, cujos limites foram traçados de maneira geopolítica, habitada por cidadãos mancomunados por deveres e direitos; já o termo nação nos traz a idéia de algo mais substancioso, ela não aparece retratada apenas pelo seu clima, seus rios e montanhas, ela surge a partir da independência de suas opiniões e da lenta evolução dos hábitos e costumes que fazem com que as pessoas se comportem naturalmente de forma peculiar, fazendo disto uma segunda natureza, como se referia Aristóteles na sua obra “Grande Moral”: mulheres e homens estão unidos pela identidade da sua origem, pelo idioma com que se comunicam e pela longa comunidade de emoções e proveitos. Pode acontecer até a perda, o desaparecimento do Estado mais raramente se destrói o sentimento de pátria, isto ficou claro em 1795, quando a Polônia desapareceu como país, durante cento e vinte e três anos, mas nunca abdicou do seu sentimento patriótico. Mas onde pretendo chegar? Bem, existem hoje cento e oitenta e nove países, alguns quase minúsculos, como é o caso de Mônaco e outros com vastíssimo território, como a Rússia, porém, não é pelo tamanho nem pelas cidades populosas que uma comunidade alcança destaque e se assim fosse, os mexicanos que moram na capital seriam mais relevantes que os romanos, já que a cidade do México possui seis vezes mais habitantes que a capital da Itália. O que distingue um país dos outros são seus personagens que cinzelaram a história, ora com a delicadeza e o primor do artista, ora com o brio e a valentia do guerreiro. São os primeiros os que outorgam o legado cultural, é através de sua obra literária que uma nação é reconhecida como erudita, são seus artistas plásticos os representantes da estética de um povo e também seus músicos, cineastas, os embaixadores da vivacidade de seus conterrâneos. Os cientistas completariam o quadro que representa uma nação? Não; ainda precisamos lembrar dos atletas, espécie de guerreiros que lutam com armas que não matam, mas que emocionam e fazem tremular bandeiras. Não podemos esquecer da gastronomia, um povo também é identificado pelo que come e pelo que bebe, e criar uma receita é mais do que uma prerrogativa do cozinheiro, ele detecta a riqueza potencial de uma região prestando atenção na fauna e na flora para que os pratos elaborados sejam puras manifestações das tradições locais. Certamente poderia continuar agregando valores àquilo que é conhecido como nacional e pensando de maneira brasileira, estaria recordando alguns dos ícones mais renomados: Vila Lobos, Portinari, Vinícius de Moraes, Mestre Vitalino, Ari Barroso, Camargo Guarnieri, Aleijadinho, Nelson Pereira dos Santos, Jorge Amado, Paulo Coelho, Santos Dumont, Ayrton Senna, Pelé, Guga, Burle Marx.... Aliás, o Brasil é um país marcante, e não só marcante como também notável; com certeza se pedíssemos a um grupo de pessoas que habitam os cincos continentes para listar uma relação de países dignos de nota e com ações relevantes na política, nas ciências, no esporte e no âmbito cultural, nosso país ocuparia um lugar entre os dez primeiros da lista. Isto pode parecer ufanismo, mas não é, e mesmo por que não nasci em terras brasileiras, mas nos pampas argentinos e foi lá que extasiado aprendi a admirar este lugar tão especial. É aqui que nascem e crescem cinqüenta e seis mil espécies vegetais, de um total aproximado de duzentas e cinqüenta mil pesquisadas no mundo todo e, é dentro dos 8.511.996 Km² que habitam 27% de todas as três mil e quinhentas espécies de palmeiras do planeta, também 30% das florestas tropicais estão por aqui formando o que conhecemos como “catedrais verdes” por causa da majestosa e do dossel espetacular formado pela copa de nossas árvores, muitas delas endêmicas. No ranking da biodiversidade, o Brasil ocupa o 1º lugar em mamíferos tendo 35% dos primatas, está em 2º lugar em anfíbios, 3º em pássaros e 5º em répteis. Nos seus rios o país conta com três mil espécies de peixes. Tudo isto transforma nossa terra em território mega diverso. Apesar de toda esta fartura ambiental, importamos plantas ornamentais e modas exóticas desde épocas cabralinas, e foi com D. João VI que o incentivo de introduzir árvores e palmeiras aumentou de forma brusca e quase obsessiva; vejam que ironia, trazer palmeiras para um país chamado Pindorama (terra das palmeiras) antes de ser denominado oficialmente de Brasil (terra onde cresce a árvore do pau brasil) e junto com elas Auguste Glaziou, Johann Linden, Albert Loefgren, Saint Hilaire, Paul Germain e outros botânicos importaram: castanheiros, plátanos, ciprestes e toda classe de árvores frutíferas, relegando a um segundo plano nossas essências nativas especialmente as frutíferas, que até hoje são desconhecidas pelos cultivadores e portanto pelo público consumidor, entre os exemplos poderia citar: Pouteria caimito abiu Plantonia insignis bacuri Rollinia mucosa biribá Eugenia tomentosa cabeludinha Marlierea edulis cambucá Paivea langsdorffii cambuci Myrcianthes edulis cereja-do-rio-grande Sterculea-chicha chichá Feijoa sellowiana feijoa Eugenia brasiliensis grumixama Campomanesia fenzliana guariboba Inga edulis ingá-cipó Hancornia speciosa mangaba Byrsonima crassifolia murici Eugenia klotzschiana pêra-do-campo Eugenia luschnathiana pitomba-da-baía Talisia esculenta pitomba-do-norte Couma utilis sorva Spondias tuberosa umbu Eugenia uvalha uvaia Eugenia stipitata araçá-boi Annona squamosa araticum Butia capitata butiá Zizyphus joazeiro juá Achras sapota sapoti Astrocaryum aculeatum tucumã Poraqueiba paraensis umari Outro dado curioso entre as árvores nativas que florescem atrativamente chama bastante a atenção a Bauhinia forficata, mas isso só na mata entre o Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, já que não é cultivada em contrapartida outras Bauhinias, procedentes da Ásia, são corriqueiras no paisagismo. Algo parecido ocorre com as plantas trepadeiras: glicínias, roseiras, jasmineiros, heras e madressilvas que são cobiçadas por jardineiros e paisagistas relevando muitas vezes os nossos cipós nativos, tão característicos na mata úmida. Por que será que cultivamos essa mania de querer trazer modas e mudas que nada tem a ver com os nossos costumes e o nosso clima? Qual o sentido de trocar Curupira por Halloween ou de podar arbustos sistematicamente evitando não apenas o desenvolvimento, mas também inibindo a florada? Contam, que Cnalis Martius, amigo do Imperador Cezar Augusto, tinha em sua guarda um número tão grande de escravos que começou sentir dificuldade em atribuir tarefas para ocupar o tempo de tantos servidores, foi então que certo dia, o ilustre senador teve a idéia de adaptar tesouras domésticas ao trabalho de jardinagem, surgindo a partir desse instante a figura do topiarius, considerado o artista que dava formas geométricas ou de animais aos alecrins e buchinhos que decoravam os jardins da Roma Antiga. Como vocês podem ver, este tipo de poda surgiu pela necessidade de ocupar a mão-de-obra excedente, numa sociedade opulenta e ociosa. Podemos acreditar que tudo isso tenha alguma coisa a ver com o nosso estilo de vida? Obviamente que não! Eu até afirmaria que a tendência hoje nos leva a sentir a necessidade de desenhar áreas verdes que perfilem um certo ar bucólico, abandonando as líneas retas e os traçados rebuscados; quiçá no afã de fugir um pouco do formalismo exorbitante que o cotidiano nos impõe na metrópole, onde tudo é artificialmente duro e frio, tendo no concreto e no aço seus principais ingredientes. O paisagismo brasileiro deverá ter como modelo o próprio usuário que é descontraído, alegre, romântico e cheio de graça e terá que usar como componentes indispensáveis muita água, em forma de lagos e riachos, inspirando no atavismo indígena de tantos mangues e cachoeiras; terá que ter sempre luz para iluminar e dar calor a tantas musáceas e tantas lenhosas viciadas em sol. Mas o mais importante neste novo paradigma é a autenticidade daquilo que é genuíno, o jardim brasileiro deverá mostrar uma realidade aparente conforme seu verdadeiro espírito. Assim, de forma singela e verdadeira, estaremos reforçando as características que nos individualizam, sem perder a fidelidade com a estética inerente à paisagem natural destas terras, que sempre esteve presente apesar de imperceptível para alguns. Primavera, à procura de caminhos por Raul Cânovas Existem centenas de maneira que nos permitam atravessar um jardim; se a pressa, a urgência for grande, a melhor forma de cortar caminho é por um atalho; com certeza assim iremos gastar menos tempo e poderemos ser mais precisos. No entanto se a trilha for sinuosa, e ainda por cima, desenhada dentro de um terreno ondulado, que nos possibilite uma constante mudança no andar, iremos seguramente descobrir na nossa frente uma série de elementos nunca vistos, que aparecem diante de nós, revelando mistérios escondidos na paisagem. Nem sempre a rapidez corre junto à procura do belo, e na maioria das vezes, para encontrar os temperos da alma precisamos seguir pelos caminhos que se desenham caprichosos, nesse verde que chamamos de jardim. Legenda: Meses atrás andei por alguns caminhos, na Tailândia, sempre sinuosos, me surpreendiam, me emocionavam, me ensinavam horizontes. Sumé, a mandioca e o Congresso por Raul Cânovas Muito antes de Cabral, e até de Colombo, um outro homem branco apareceu por estas terras sul-americanas, com a intenção de instruir os indígenas sobre os mistérios da terra, ensinando técnicas e muitas manhas de cultivo. Sumé, esse era o nome do enigmático personagem, os alertou para não comer carne humana, dando-lhes em contrapartida a técnica e as receitas de um outro sustento que se transformou a partir de então, numa iguaria, quase uma panacéia: a mandioca. Assim como surgiu, de forma repentina e sobrenatural, Sumé desapareceu no horizonte, andando sobre as águas do oceano. Deixou junto com a saudade muita concórdia e uma porção de conselhos que os pajés preservam como legados, de geração para geração. Com nostalgia, lembro agora de Sumé, no preciso momento em que o Brasil procura um homem probo, que congregue nossos parlamentares. Penso que ele poderia, lá de longe, iluminar algum “cacique” que se compadeça de todos nós. Curisidades A Influência Energética das Plantas no Universo Feminino por Raul Cânovas A esposa do Imperador Augusto, Lívia Drusila (55 a.C – 31 d.C), estava um dia sentada, distraidamente, quando uma águia deixou cair em seu colo uma galinha branca, ela trazia no bico um ramo de louro com muitos frutinhos, esta galinha, que tinha sido enviada por Júpiter, foi considerada um emblema de paz e as sementes do louro foram plantadas na margem do Rio Tibre, na casa de campo dos Cézares. Com o tempo, estas sementes se transformaram num bosque aprazível, onde os nobres e os imperadores romanos iam a busca de paz. O poder de algumas delas: • Açaí: O consumo de seus frutos, escuros e adocicados, revitalizam as morenas, tornando-as cobiçadas. • Alecrim: As flores fervidas em vinho branco, refrescam o rosto. • Aloe: Impede a queda dos cabelos. • Amarílis: Mantem a mulher acordada. • Amendoim: Atraí a simpatia dos homens. • Aristolochia: O fumo de suas sementes controla a epilepsia, sendo indicado por aquelas que sofreram de feitiço. • Arruda: Tanto no jardim, como sendo carregada por uma mulher, irá afastar os maus intencionados. • Artemísia: Talismã usado contra a sedução, a ira e os maus espíritos. • Avenca: Tira os medos, agindo no sistema nervoso, especialmente, aqueles ligados a vida profissional. O chá feito com a raiz e as folhas é empregado no tratamento de complicações menstruais, também é indicado no climatério. • Bambu: É o protetor contra inveja, mas para que possa exercer toda sua força, deve ser plantado sempre em áreas externas. • Bromélia: É uma planta de proteção, se uma mulher cercar sua casa com elas, não irá sofrer nenhum tipo de agressão, mas em contra partida, poderá estar renunciando a receber a visita do Bem. • Camelia: Antigamente, o óleo extraído das flores era usado para alimentar as lamparinas das igrejas; portanto, era indicado para entrar em contato com o divino. • Cipreste: Dá um poder especial as bruxas, elas construíam mesas triangulares com a madeira desta árvore, para executar os trabalhos de magia. • Clorofito: Dentro de casa absorve a substancias nocivas, transformando o negativo em positivo. • Copo-de-leite: Ativador dos sentidos, especialmente os auditivos. É associada a Santa Cecília, patrona dos músicos. Costela-de-adão: Irradia sossego e harmonia, ótima para ser plantada em vasos e em escritórios. • Crisântemo: O símbolo do império japonês, é utilizada no oriente, para desmanchar sortilégios. • Erva cidreira: Antigamente, era bebida nos templos pelas mulheres por causa de sua ação dinamizadora. • Fícus: Indicado para as introvertidas, as crianças devem ficar afastadas. • Flor-de-cera: Indicada nos momentos em que as românticas precisam recuperar a realidade. • Hera: Excelente aliada que nos ajuda a sair de situações complicadas e até de uma estagnação; suas ondas energéticas impulsionam sempre pra frente. • Hibiscus: As mulheres introvertidas serão favorecidas nas suas iniciativas e contatos. • Hortência: Uma aliada na luta contra a melancolia e a depressão. • Impatiens: Arma eficaz para vencer o estresse. • Jaqueira: Exuberante e doce, mas ao mesmo tempo impulsiva reclamando para si espaço e atenção, as mulheres que ficarem perto dela poderam adquirir energia e força sem perder suavidade e doçura. • Kalanchoe: Sua presença é perfeita no café da manhã, já que combate o mau humor, daquelas que acordam com o pé esquerdo. • Laranjeira: Símbolo da castidade. • Linquen: Símbolo da solidão. • Lírio: Quando o Arcanjo Gabriel, revelou a Maria o anuncio da vinda do Messias, deixou com ela lírios que, a partir desse momento, se tornaram símbolos da castidade. • Lótus: Pureza. • Louro: Por meio das folhas queimadas do loureiro, antigamente, se podia ler o futuro, esta ciência era chamada de Dafnomancia. • Maranta: Infunde coragem profissional, esta é uma planta ideal para ambientes de trabalho. • Murta: Era consagrada a Vênus, a deusa do amor, e também aos Penates que eram os antepassados e os protetores da casa. • Orquidea: Afasta os maus espíritos, aumenta a energia sexual, sua presença é ideal no quarto. • Palmeira: Ajuda nas profecias e simboliza a vitória. • Palmeira chamaedorea: Sua energia é lenta e renovadora, age como um ventilador renovando o ar, torna a mulher mais permeável e comunicativa. • Palmeira latania: Proporciona agressividade, ação e ajudam na luta por um objetivo. • Primula: Afasta a melancolia. • Resedá: Misticamente tem uma ligação muito especial com a Virgem Maria, representando a bondade. • Roseira: É a imagem simbólica da paciência, do martírio e da virgindade, neste último caso, só quando a flor é branca. A água de rosas prepara a alma para revelações profundas. • Verbena: Um canteiro próximo à entrada da residência propicia a prosperidade. • Violeta africana: Fornece alegria e amor. • Zebrina: Ajuda a superar dificuldades e pode ser uma aliada na hora de reativar projetos abandonados. Uma narrativa muito antiga da mitologia teotonica, conta que Baldur, o deus da luz, viu Nana, a princesa das flores, tomando banho em um rio, ela estava nua, seus movimentos eram lentos e suaves; o coração do Baldur não resistiu quando a graça natural de Nana foi fortalecida pela energia sobre a qual ele reinava. A partir desse momento, os amantes nunca mais se separaram, transformando o mundo das flores em um reino de luz e de energia. Algumas curiosidades sobre o Carnaval por Raul Cânovas Segunda-feira estará começando uma semana de forma diferente, já que até quarta-feira ainda estaremos no ritmo de Carnaval e, sintonizado com esta folia vou contar algumas coisas que falam desta festa que, segundo consta, se festeja desde épocas remotas, quando era chamada de “lupercalias”, “saturnalias” ou “bacanais”, tudo isso bem antes de Cristo, durante o império Celta e mais tarde na Roma dos Cesares. Plutarco, que foi cronista e historiador no início da era cristã, contava que no dia 15 de fevereiro, sacrificavam cabritos e até cachorros e as sacerdotisas, que eram chamadas de vestais, faziam pastéis de trigo com as primeiras espigas da última safra para homenagear os deuses; durante a cerimônia, dois rapazes, filhos de patrícios, ou seja, de nobres romanos, cortavam a pele dos animais imolados em tiras e corriam seminus batendo em todo mundo, o interessante, segundo conta Plutarco, é que as moças que apanhavam tinham a garantia ou o privilégio de no futuro ter um parto fácil e sem dor. Estas eram as crendices na época em que os Césares governavam o maior império da antiguidade, período também no qual o imperador Adriano mandou construir os jardins de Tívoli a 24 km ao leste de Roma e que depois de terminados ocupavam uma área de 27 alqueires; estas festas foram proibidas por São Gelásio I, o Papa em 496, 20 anos após a queda do último imperador, que foi Rômulo Augustulo. Apesar de tudo, o Carnaval continuou com seus “currus-navalis”, barcos com rodas que desfilavam pelas ruas transportando foliões que cantavam músicas sarcásticas e muitas vezes bastante apimentadas, aliás o termo “currus-navalis” originou talvez a palavra Carnaval. Em Salvador os trios-elétricos se inspiraram, com certeza, nessa tradição antiga incorporando apenas a tecnologia de autofalantes e veículos movidos a motor. A palavra Carnaval pode ter origem também na expressão “carne-vale” que era o período anterior a quaresma onde a carne era liberada, na de 4ª.feira de cinzas e até a Páscoa a abstenção era recomendada pela igreja católica. Pieter Bruegel no século XVI pintou uma tela onde satiriza a folia, essa obra se chama “O Combate entre a Quaresma e o Carnaval” e mostra muito bem, o atrito entre a diversão e o recolhimento. Momo sempre reinou para inverter a ordem das coisas; o homem se fantasia de mulher e as pessoas menos favorecidas se vestem com trajes de luxo, isso acontece, quem sabe, exatamente porque Momo é a personificação da crítica e do sarcasmo, segundo a mitologia, ele era filho da noite e do sono e irmão das Hespérides, estas 3 moças cuidavam do jardim dos deuses onde estavam plantadas as famosas macieiras que davam maçãs de ouro. O entrudo como era chamada também esta festa do rei Momo, em meados do séc. XIX época em que Debret pintou as primeiras tentativas de implantar esta tradição, estava sendo importado dos Açores, onde brincavam com limões feitos em cera e água perfumada; era comum na época ver imperadores e ministros brincando com ovos podres e folhas de hortaliças que emporcalhavam os trajes ricos, feitos com veludos, sedas e brocados; o próprio Dom Pedro II acabou no meio de uma dessas brincadeiras caindo num tanque de água no meio de muita risada, foi exatamente nessa época, em 1840, que se realizou o primeiro baile no Rio de Janeiro, uma festa de máscaras com grande influência francesa. Nas ruas a tradição era portuguesa, com muita água, farinha e grupos que saíam cantando pelas ruas. O Carnaval foi se tornando popular por todo o Brasil e teve outras influências. Na Bahia, por exemplo, os africanos trouxeram o afoxé que eram grupos de negros cantando em nagô, fantasiados com roupas coloridas e luxuosas; em Pernambuco surgiu o frevo em 1909, quando o povo ligava a dança frenética a algo que fervia, que pegava fogo. Um personagem marcante e também histórico foi o sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes que trouxe de sua terra, no norte de Portugal, uma tradição conhecida como “Zé Pereira”. O Zé Pereira era formado por um grupo carnavalesco que, na véspera do Carnaval, desfilava anunciando a festa com bumbos, zabumbas e outros tambores fazendo um barulho ensurdecedor e cantando: “Viva o Zé-Pereira! Que a ninguém faz mal! Viva o Zé-Pereira! No dia do Carnaval.” Este divertido português desfilou pela primeira vez com seus foliões em 1846. Hoje, aqui em São Paulo, os desfiles são realmente fantásticos e em nada lembram os tímidos blocos do Zé-pereira, também é raro ver fantasias de esqueletos como antigamente, quando as pessoas usavam máscaras e roupas de defuntos para de alguma maneira encarnar parentes e amigos mortos e, fazer de conta que eles podiam assim, se divertir também. O Carnaval de hoje é mais luxuoso, mais cenográfico, virou um grande show e perdeu também a ingenuidade de antigamente, quando nos cordões e nos ranchos, as pessoas brincavam maliciosamente sim, mas no fundo de uma forma muito mais inocente do que hoje, já que não existia essa violência alimentada por drogas e pelo o desespero. Árvores, símbolos e curiosidades por Raul Cânovas Eu pessoalmente acredito que todo este imenso cenário que chamamos de planeta terra foi sendo moldado com muito cuidado, lentamente e até com uma certa parcimônia; se não vejam: segundo os cientistas a terra tem 4,6 bilhões de anos, as primeiras rochas apareceram a quase 4 bilhões de anos, depois surgiram bactérias, algas, musgos e cogumelos, mas as primeiras árvores fincaram suas raízes muito tempo depois, mais ou menos há 150 milhões de anos, quando apareceu o Gingko, que embora não se pareça em nada com as coníferas, cuja família agrupa os pinheiros, as thujas, as araucárias, os cedros e tantas outras, é quase uma prima delas. Este Gingko, a meu modo de ver, foi uma espécie de herói vegetal, porque se incumbiu de uma tarefa, na época poderíamos dizer de ciclópea, emergindo no meio das samambaias com a robustez de um tronco lenhoso; parece que esta proeza, esta façanha aconteceu na China. O ocidente só conheceu esta árvore por volta de1700, quando foi introduzida na França. Eu acredito que as árvores que serviram para dar um acabamento à paisagem, depois da aventura bem sucedida do Gingko despontaram outras aumentando a biodiversidade e acrescentando formas a essa paisagem definitiva. Tudo isto, como vocês podem ver, demorou muito e até faz sentido, porque só por intermédio de processos lentos é que chegamos a perfeição; e não há dúvida que a intenção do planeta era a de proporcionar um habitat imenso, bem acabado e primoroso para que nós, mulheres e homens tivéssemos um campo ideal para aperfeiçoarmos. Em um texto tomado de um velho livro judaico, a respeito do Gênesis; que é o primeiro livro da Bíblia e que trata especificamente da origem do mundo e do gênero humano; Deus afirma que plantou uma árvore para que mais tarde, o mundo inteiro pudesse nela deliciar-se, ela abrange um todo; e esse todo é abarcado por ela, e todas as coisas do mundo necessitam dela porque dela emanam as energias da vida; segundo alguns talmúdicos, que são aqueles que interpretam os antigos textos hebraicos, Deus teria experimentado um imenso prazer, depois de sentir os resultados desta experiência divina; e eles mesmos fazem uma analogia entre os poderes de Deus e a copa da árvore da vida; as forças celestiais estão dispostas em camadas e são como uma árvore que dá seus frutos na medida em que o Criador aumenta sua vitalidade por intermédio da água da vida e da sabedoria; e estes frutos seriam as almas dos próprios homens e mulheres que voam em direção ao divino. A imagem, segundo estes rabinos, estes doutores; é muito bonita porque se vê completada por anjos que surgem mais tarde, alegoricamente adotando a forma de árvores no Paraíso. Gostaria de esclarecer que quando falo da ligação atávica, ou seja, dessa herança psíquica e remota que nos une às florestas, não o faço como paisagista apenas, é fácil perceber que o ser humano desde épocas distantes buscou na mitologia as explicações para sua própria existência e nestas passagens dos tempos fabulosos podem ser encontrados uma porção de deuses que representam as forças da natureza e que se encontram no mudo vegetal. Alguns destes deuses são bastante conhecidos e até citados pelos poetas e pelos professores de história, mas existem outros dos quais raramente ouvimos falar como é o caso de Vertumnio que foi coroado no Monte Olimpo com ervas e lhe foi dado uma cornucópia, que era uma espécie de vaso, em forma de corno cheio de flores e de frutos; Vertumnio casou com Pomona que era uma divindade etrusca que simbolizava estas flores, as plantas e também os frutos, mas era ele o deus que protegia os jardins e as hortas. Nesse mundo divino e fantástico descobrimos Silvano que era o deus das árvores e dos bosques e Ceres que era a deidade da vegetação. A relação é enorme, mas o importante e saber que os gregos e os romanos tentaram entender e representar a beleza por intermédio do celestial e da pureza. Os deuses representavam esta beleza, e no mundo antigo se acreditava que as coisas bonitas e perfeitas estavam intimamente associadas a natureza. As pessoas dessa maneira estariam criando ícones e ao mesmo tempo metas a serem atingidas através da perfeição. Os Caldeos e os Assírios foram os primeiros a dar um significado simbólico. A árvore da vida era representada nos relevos escultóricos acompanhada de seres alados em atitude de adoração. Depois já na Idade Média era comum ver a árvore genealógica de Jesus; da boca e do peito de José, quase sempre em deitado onde uma árvore com os galhos sempre carregados de folhas e de frutas. Aparecem os reis de Judá, ascendentes de Cristo, e no último galho rodeada de uma áurea de luz, esta a Virgem Maria, vestida de rainha, com o menino nos braços e com freqüência sentada sobre uma flor que lhe serve de trono. Nesta árvore aparecem às vezes os profetas e até os sábios da antiga Grécia. Por falar em símbolo, muitas são as árvores que representam a imagem do estoicismo, da robustez e da energia. As sequóias californianas, com mais de cem metros de altura, alguns carvalhos europeus e um raro cipreste que vive em um cemitério no México, têm idades em torno de quatro mil anos. Um pinheiro vegetando a uma altura de 3.200m nas montanhas Rochosas, na América do Norte tem 4.900 anos e apenas doze metros de altura. Também no México uma outra testemunha da história é "El arbol de la noche triste", esta Ceiba deu abrigo ao conquistador Hernán Cortés após ter sido vencido pelos indígenas; segundo a lenda, o navegante espanhol chorou a derrota protegido pela copa da árvore em 1º de julho de 1520; sua idade foi calculada em 6000 anos, e uma comissão internacional de botânicos está trabalhando para sua preservação. Ciprestes plantados pelos Etruscos na península itálica, Baobás na Índia e até oliveiras no Gethsemani, onde Jesus orou, ainda vivem no meio a uma calma secular. Aqui no Brasil, mais precisamente em Santa Rita do Passa Quatro – SP, um Jequitibá de 45 séculos de vida precisa de mais de dez pessoas para ser abraçado. Árvores, símbolos e curiosidades por Raul Cânovas Eu pessoalmente acredito que todo este imenso cenário que chamamos de planeta terra foi sendo moldado com muito cuidado, lentamente e até com uma certa parcimônia; se não vejam: segundo os cientistas a terra tem 4,6 bilhões de anos, as primeiras rochas apareceram a quase 4 bilhões de anos, depois surgiram bactérias, algas, musgos e cogumelos, mas as primeiras árvores fincaram suas raízes muito tempo depois, mais ou menos há 150 milhões de anos, quando apareceu o Gingko, que embora não se pareça em nada com as coníferas, cuja família agrupa os pinheiros, as thujas, as araucárias, os cedros e tantas outras, é quase uma prima delas. Este Gingko, a meu modo de ver, foi uma espécie de herói vegetal, porque se incumbiu de uma tarefa, na época poderíamos dizer de ciclópea, emergindo no meio das samambaias com a robustez de um tronco lenhoso; parece que esta proeza, esta façanha aconteceu na China. O ocidente só conheceu esta árvore por volta de1700, quando foi introduzida na França. Eu acredito que as árvores que serviram para dar um acabamento à paisagem, depois da aventura bem sucedida do Gingko despontaram outras aumentando a biodiversidade e acrescentando formas a essa paisagem definitiva. Tudo isto, como vocês podem ver, demorou muito e até faz sentido, porque só por intermédio de processos lentos é que chegamos a perfeição; e não há dúvida que a intenção do planeta era a de proporcionar um habitat imenso, bem acabado e primoroso para que nós, mulheres e homens tivéssemos um campo ideal para aperfeiçoarmos. Em um texto tomado de um velho livro judaico, a respeito do Gênesis; que é o primeiro livro da Bíblia e que trata especificamente da origem do mundo e do gênero humano; Deus afirma que plantou uma árvore para que mais tarde, o mundo inteiro pudesse nela deliciar-se, ela abrange um todo; e esse todo é abarcado por ela, e todas as coisas do mundo necessitam dela porque dela emanam as energias da vida; segundo alguns talmúdicos, que são aqueles que interpretam os antigos textos hebraicos, Deus teria experimentado um imenso prazer, depois de sentir os resultados desta experiência divina; e eles mesmos fazem uma analogia entre os poderes de Deus e a copa da árvore da vida; as forças celestiais estão dispostas em camadas e são como uma árvore que dá seus frutos na medida em que o Criador aumenta sua vitalidade por intermédio da água da vida e da sabedoria; e estes frutos seriam as almas dos próprios homens e mulheres que voam em direção ao divino. A imagem, segundo estes rabinos, estes doutores; é muito bonita porque se vê completada por anjos que surgem mais tarde, alegoricamente adotando a forma de árvores no Paraíso. Gostaria de esclarecer que quando falo da ligação atávica, ou seja, dessa herança psíquica e remota que nos une às florestas, não o faço como paisagista apenas, é fácil perceber que o ser humano desde épocas distantes buscou na mitologia as explicações para sua própria existência e nestas passagens dos tempos fabulosos podem ser encontrados uma porção de deuses que representam as forças da natureza e que se encontram no mudo vegetal. Alguns destes deuses são bastante conhecidos e até citados pelos poetas e pelos professores de história, mas existem outros dos quais raramente ouvimos falar como é o caso de Vertumnio que foi coroado no Monte Olimpo com ervas e lhe foi dado uma cornucópia, que era uma espécie de vaso, em forma de corno cheio de flores e de frutos; Vertumnio casou com Pomona que era uma divindade etrusca que simbolizava estas flores, as plantas e também os frutos, mas era ele o deus que protegia os jardins e as hortas. Nesse mundo divino e fantástico descobrimos Silvano que era o deus das árvores e dos bosques e Ceres que era a deidade da vegetação. A relação é enorme, mas o importante e saber que os gregos e os romanos tentaram entender e representar a beleza por intermédio do celestial e da pureza. Os deuses representavam esta beleza, e no mundo antigo se acreditava que as coisas bonitas e perfeitas estavam intimamente associadas a natureza. As pessoas dessa maneira estariam criando ícones e ao mesmo tempo metas a serem atingidas através da perfeição. Os Caldeos e os Assírios foram os primeiros a dar um significado simbólico. A árvore da vida era representada nos relevos escultóricos acompanhada de seres alados em atitude de adoração. Depois já na Idade Média era comum ver a árvore genealógica de Jesus; da boca e do peito de José, quase sempre em deitado onde uma árvore com os galhos sempre carregados de folhas e de frutas. Aparecem os reis de Judá, ascendentes de Cristo, e no último galho rodeada de uma áurea de luz, esta a Virgem Maria, vestida de rainha, com o menino nos braços e com freqüência sentada sobre uma flor que lhe serve de trono. Nesta árvore aparecem às vezes os profetas e até os sábios da antiga Grécia. Por falar em símbolo, muitas são as árvores que representam a imagem do estoicismo, da robustez e da energia. As sequóias californianas, com mais de cem metros de altura, alguns carvalhos europeus e um raro cipreste que vive em um cemitério no México, têm idades em torno de quatro mil anos. Um pinheiro vegetando a uma altura de 3.200m nas montanhas Rochosas, na América do Norte tem 4.900 anos e apenas doze metros de altura. Também no México uma outra testemunha da história é "El arbol de la noche triste", esta Ceiba deu abrigo ao conquistador Hernán Cortés após ter sido vencido pelos indígenas; segundo a lenda, o navegante espanhol chorou a derrota protegido pela copa da árvore em 1º de julho de 1520; sua idade foi calculada em 6000 anos, e uma comissão internacional de botânicos está trabalhando para sua preservação. Ciprestes plantados pelos Etruscos na península itálica, Baobás na Índia e até oliveiras no Gethsemani, onde Jesus orou, ainda vivem no meio a uma calma secular. Aqui no Brasil, mais precisamente em Santa Rita do Passa Quatro – SP, um Jequitibá de 45 séculos de vida precisa de mais de dez pessoas para ser abraçado. As plantas e a religião católica por Raul Cânovas É interessante o caráter sagrado que a religião católica tem atribuído as plantas, a igreja deixou para São João as plantas consagradas ao sol, em contrapartida, a Virgem Maria herdou uma boa parte das homenagens que recebia a deusa Diana, símbolo mitológico da castidade. O Cristianismo se aproveitou de muitos mitos do paganismo para representar novos símbolos. A seguir relacionamos alguns deles: Bibliografia: BRUCE-MITFORD, Miranda; El Libro Ilustrado de Signos y Símbolos; Buenos Aires – Argentina; Editorial El Ateneo, 2000 CROW, W. B.; Propriedades Ocultas das Ervas & Plantas; São Paulo – Brasil; Hemus Editora Ltda, 1982 D’HUMIAC, Michaud; Lendas Famosas e Outras Paginas; São Paulo – Brasil; Livraria e Editora Logos Ltda, 1960 GRAF, A. B.; Tropica; N. J – USA – Roehrs Company Publishers, 1978 HARVEY, Jack; Herbs; Macdonald Educational Ltd, 1976 MANDOZA, Carlos; La Leyenda De Las Plantas; Barcelona – Espanha; Editorial Alta Fulla, 1997 SIMONETTI, Gualtiero; Spezie e Aromi; Milão – Itália; Arnoldo Mondadori Editore, S.p.A, 1990 WRIGTH, Michael; The Complete Handbook of Garden Plants; Londres – Inglaterra; The Rainbird Publishing Group Limited, 1984 Bendito é o Fruto por Sônia Cesarino Bendito seja este porta jóia, esta urna, este útero que encerra as preciosas sementes as quais contém todo o segredo, todas as informações necessárias para o surgimento de uma nova vida. Estas jóias que germinam e promovem a continuidade das espécies. Bendito seja o fruto que permanece fechado sobre as sementes dando-lhes proteção e alimento enquanto amadurecem. Bendito seja o fruto, grande, pequeno, suculento, seco, redondo, comprido, colorido, verde, preto, rugoso, espinhento, liso, peludo, doce, azedo. Bendito seja o fruto que só amadurece quando as sementes estão prontas para germinar e aí eles arrumam um jeito de colocá-las em contato com o solo para cumprirem sua missão. Ou eles explodem, ou caem e apodrecem no chão, ou são levados grudados ao corpo dos animais, ou são comidos e depois expelidos pelas suas fezes, ou atingem o solo com a impulsão de nossas bocas que degustam o fruto e depois cospem as sementes, ou são triturados pelos bicos poderosos das aves. De uma forma ou de outra aquelas sementinhas, jóias preciosas, saem de seu porta jóias. Muitas vezes elas no parecem totalmente sem vida, mas em contato com o solo e um pouquinho de umidade saem do seu repouso e iniciam o mágico processo de germinação. Bendito seja o fruto, característico das Angiospermas, aquele que nasce da fecundação da flor que de tão bonita seduz pássaros e insetos que a polinizam levando o pólen até o seu ovário. Aí elas se despem de sua beleza e perdem pétalas, sépalas e pistilos restando somente o ovário e os óvulos, ou seja, o fruto e as sementes futuras. Só as Angiospermas possuem frutos e por isso são consideradas as plantas mais evoluídas. Angio significa urna e sperma, semente. Para ilustrar este texto resolvi colocar uma bonita fruteira , não com pêras, maças, bananas e laranjas, mas sim com frutos colhidos no meu quintal. Frutos de lírios, quaresmeiras, mussaendas, nandinas, russélias, orquídeas, roseiras, jasmins, ligustros, etc. Apesar de não muito apetitosos para nós, não deixam de ser muito importantes para a natureza. Colibri e Lantana por Sandra Rivetti Um pequeno beijar-flor (Eulidia yarelii) com menos de 8cm e pesando cerca de 5g cujo habitat são os vales dos rios Azapa e Lluta (Chile e Peru) busca seu alimento em uma Lantana câmara ou câmara-de-cheiro (familia das verbenáceas) nativa da América do Sul e Central. Por incrível que pareça o jardim à esquerda, graças a uma cuidadosa seleção de plantas, requer a metade da água necessária na manutenção do gramado do seu vizinho! Situados na mesma latitude que a península da Nova Escócia e o norte Mongólia, existem jardins na Cornuaglia (Inglaterra), onde, graças ao efeito do Corrente do Golfo, crescem plantas de regiões bem mais próximas ao Equador. Com oitocentas vezes o volume do Rio Amazonas, a corrente transporta o calor solar do Caribe para a Europa. John Nelson, diretor do Heligan Gardens, exibe uma copia do primeiro mapa da Corrente do Golfo (abaixo). Foi Benjamin Franklin que mandou edita-lo em 1770, na esperança de que os navios correio pegassem o rápido fluxo ao viajar da América para a Inglaterra. Samambaias da Austrália, plantadas no final de 1800, cercam Nelson. Vegetação nativa dá vida ao rosto esculpido em pedra. No mesmo local um jardineiro controla uma Gunnera gigante de clima subtropical. “De vez em quando cai um pouco de neve” diz Nelson explicando a foto tirada em fevereiro de 1994. “Mas seu efeito não dura mais do que duas horas”. Alguns cientistas porém, acreditam que o frio matador pode estar a caminho. Se o dióxido de carbono na atmosfera continuar a aumentar, o aquecimento poderá derreter as calotas polares e aumentar as chuvas. A introdução de água fria poderá desequilibrar a temperatura da Corrente do Golfo e longos invernos do tipo Siberiano poderão rapidamente acontecer na Europa! Quanto trabalho!!! Arizona O paisagista Bob Jhnson transplanta um cacto Saguaro para um condomínio nos arredores de Phoenix. O cacto tem um certificado que indica sua proveniência documento necessário em uma região onde coletores de cactos acabam na cadeia! Nicarágua Podar é difícil! Lupinus polyphillus Da família das Leguminosas, proviniente da América norte-ocidental foi introduzido na Europa em 1826. Existem espécies de cor rosa, azul, branca e violeta. Florescem entre junho e agosto. Chekhovo – Rússia – região do Báltico Desastre em versailles Essas árvores tombadas que sobreviveram e à duas Guerras Mundiais não agüentaram a tempestade de 26 de dezembro de 1999. Os danos foram estimados em 35 milhões de dólares. 80% da vegetação foi afetada incluindo um pinheiro da Córsega plantado na época de Napoleão e dois juniperos da época de Maria Antonieta. Mais de 500 árvores foram doadas para começar o longo processo de substituição. Comportamento Humano e Vegetal – Algumas coincidências por Raul Cânovas Há alguns tipos de comportamentos nas pessoas que, se prestarmos a devida atenção também acharemos ao menos de modo essencial nas plantas. A intolerância, por exemplo, é uma espécie de sentimento muito comum, naqueles que encontram alguma dificuldade em inserirem-se num contexto social, isto é, pessoas inaptas para adaptarem seu modo de vida ao de outros. Esta intransigência pode levar homens e mulheres a um estado de completa solidão e auto-segregação, cujo clímax pode levar a ataques de terrível violência. Traçando uma analogia entre as pessoas e as árvores, eu gostaria de focalizar os eucaliptos. Se alguém parar para pensar acerca dessa árvore, verá que existe uma semelhança entre pessoas intolerantes e os eucaliptos; essas árvores não suportam a proximidade de outras plantas, dificilmente nota-se a presença de arbustos, grama ou qualquer outro tipo de vegetal perto deles. Quando preciso criar um projeto paisagístico em uma área onde já existem eucaliptos, prefiro usar rochas ou outros materiais de pavimentação, porque sei que o convívio com essas árvores é extremamente difícil, mesmo os pássaros evitam pousar nos seus galhos. Outra característica dessa espécie é a dureza de sua madeira, a qual nos faz pensar em algumas pessoas que, em virtude de sua austeridade e inflexibilidade, são incapazes de rever suas opiniões, tornando-se excessivamente amargas e severas. Estes eucaliptos, devido a sua madeira dura, várias vezes, são derrubadas pelo vento e pelas tempestades, exatamente por não terem aquela adequação necessária à vida diária. Já faz algum tempo que eu tenho observado a convivência de uma palmeira e de um eucalipto que cresceram juntos (por alguma razão que eu desconheço), perto da minha casa, agora eles já estão imensos. O eucalipto, em virtude de sua arrogância, é um pouco maior que a palmeira, mas o que me surpreendeu é que eles parecem combinar. Se por um lado, um está constantemente ocupado em exibir seu poder e grandeza, do outro, é notável a flexibilidade e a maleabilidade da palmeira. Quem sabe, se eles não estão trocando opiniões ou informações, acerca da aventura de viver, ou mesmo, para adquirir uma melhor compreensão acerca da convivência humana? As coincidências não param por aí. Dentro de uma semente de jequitibá, pequenina e frágil como parece, existe a pretensão de uma árvore que se tornará um verdadeiro gigante, apenas com a ajuda da água da chuva e um pouco de paciência. Uma árvore, cujos ramos mais altos quase tocam o céu e as raízes penetram profundamente no interior da terra, invencível frente aos ventos e tempestades. Do mesmo modo, quantas vezes não vimos uma criança pequena e indefesa, e alguns anos mais tarde nos surpreendem como um homem já forte e vigoroso? Essa é a razão, pela qual eu penso que as plantas e as pessoas se parecem tanto. Claro que eu não tenho a pretensão de explicar todas as coisas, especialmente porque, a despeito desses paralelos há algumas que ainda me surpreendem; a rosa, por exemplo, você consegue entender o estranho arranjo de pétalas vermelhas e aveludadas, que nos seduzem com o seu perfume, enquanto seus espinhos podem ferir-nos dolorosamente? Se ela nos atrai, pode também nos fazer sangrar. Bem, eu tenho ainda muitas perguntas igualmente intrigantes, para as quais não tenho respostas claras, e o mais importante do que ter as respostas corretas, é fazer as perguntas pertinentes, dessa maneira espero ter levantado na mente de meus leitores, questões importantes e ter iluminado o caminho que conduz a descoberta de muitas outras coincidências, entre o nosso mundo e o mundo das plantas. Flores do deserto por Sandra Rivetti Arábia Saudita – Cistanche phelypaea (Yellow broom) Família Orobanchaceae parasita das raízes dos exemplares da família das Chenopodiaceae halu’k em árabe. Ao aparecerem em fevereiro assemelham-se a grandes brotos de aspargos. Ao findar março já completaram seu ciclo. Alcançam de 60 a 70cm de altura e, como as raízes da planta hospedeira podem estender-se por muitos metros à procura de água, brotam às vezes em áreas que parecem ser totalmente sem vida. Cada planta produz milhares de minúsculas sementes que podem ficar em dormência por até vinte anos. A semente só germina quando a raiz de uma planta hospedeira estiver a poucos milímetros de distância o que torna possível uma reação química que provoca a germinação. MEMÓRIAS por Sandra Rivetti Concientizei-me que existia quando percebi que o preto dava lugar ao cinzento e, que meu ápice, algo saía e percebia um “ao redor”. Sentia tudo estranho, diferente, mas havia uma certa energia em meu estado. Eu progredira, mudara e sentia-me com maiores capacidades. Algo em minha base crescia rapidamente e, minha parte de cima, gostava e aumentava também. Havia um certo calor gostoso, o cinzento virou mais claro e o líquido, que aparecia sincopadamente, me agradava. Havia tempos claros e tempos escuros. Por vários alternar de claro e escuro, nada aconteceu de novo. Eu crescia e evoluía tranqüilamente até que não sei porque, senti-me alvoroçado, manipulado e, ao redor tudo mudou era bem mais claro e maior. Pude aumentar mais rapidamente. Deram-me alimentos gostosos e o líquido por vezes vinha do alto e me molhava de cima abaixo. Estava bem gostoso! Passaram-se muitos claros e escuros, o calor aumentou e diminuiu muitas vezes e então, mais uma vez tudo mudou! Fui levantado e levado para um lugar esquisito que sacudia. Minha base não tinha firmeza e o “ao redor” era confuso, desfocado e desagradável. Tal estado durou do claro ao quase escuro. Aí tudo parou. Minha base apoiada firme, mas o “ao redor” era completamente diferente. Quando o claro apareceu surgiu o lado errado! Não gostei, mas tinha que aceitar, pois compreendi que sem ajuda, não poderia me delocar. Pouco tempo depois me manipularam novamente, mas, desta vez, foi melhor. Meus pés foram colocados em um lugar aconchegante onde havia alimento e espaço para aumentar. Foram cobertos com algo macio e úmido e o logo me deram mais líquido. O “ao redor” era colorido e havia também outros seres parecidos comigo. O escuro chegou e, para minha felicidade, o claro apareceu do lado certo! Desde então, não fui mais perturbado. Fiz amigos com os quais troco experiências. Cresci muito, amadureci e já sei o que são galhos, folhas, flores e frutos. Conheço vários passarinhos e insetos. Quase todos são amigos, mas de vez em quando, aparecem alguns que não são do meu agrado...Aí me dão remédio ou vapor e, esses intrusos, desaparecem. Gosto de onde estou e sei que há quem me ajuda a ser maior, mais frondoso, mais florido. Meus colegas, grandes e pequenos, são bem tratados também. Somos todos felizes. Comentávamos, outro dia, que nossa casa deve ser um JARDIM! Que bela palavra! Origem dos licores por Luciane Vieira Garcia Como definir tão inebriante bebida? Poção do amor, bálsamo, elixir de longa vida, beberagem misteriosa dos alquimistas? Talvez os licores, misteriosamente, sejam um pouco de cada suposição. Independente do cognome que receba, o importante é adentrar a esse universo delicioso e tirar dele todo o prazer que essa bebida pode nos dar. Quanto a sua origem, a criatividade do povo vai ainda mais além que sua própria definição. Conta a lenda que uma jovem, desprezada pelo seu grande amor, tentou reconquistá-lo de todas as maneiras. Percebendo que todos os seus esforços eram inúteis, resolveu preparar uma mistura de frutas e ervas finas, extraindo uma bebida adocicada, saborosa e afrodisíaca. Se conseguiu conquistar o jovem, ninguém sabe até hoje. Mas, com certeza, ela deixou para posterioridade uma bebida deliciosa. Outra versão para a criação dos licores é atribuída às bruxas, as quais sob aparência de belas jovens, preparavam com frutas e ervas uma poção que tinha o misterioso poder de unir para sempre os casais de amantes. Deixando de lado a fantasia, a versão mais provável da origem dos licores é que eles nasceram nas poções caseiras e xaropes de ervas medicinais e frutas que as mulheres do povo faziam para curar os mais diversos males do estomago, tosse entre outros. Entrando pela história, encontramos os chineses, há mais de 800 a. C. com o hábito de tomar uma bebida destilada, preparada a partir da fermentação de arroz, muito parecida com o licor. Também, muitos países europeus, tais como Grã-Bretanha, França, Itália e alguns outros, produzem, desde épocas remotas, bebidas semelhantes ao nosso LICOR. Mas o grande incremento na fabricação de licores deu-se com o processo de obtenção do álcool através de destilação e fermentação, desenvolvidos pelos árabes no século X. A partir dessa data, os alquimistas árabes resolveram usar o álcool nos seus medicamentos preparados com ervas medicinais, abrindo caminho para que se fabricassem famosas bebidas. Posteriormente, o alquimista catalão Arnould Villeneuve, no ano de 1250, conseguiu pela primeira vez extrair os princípios aromáticos das ervas, deixando-as em maceração no álcool, conservando a essência e todas as propriedades. Esse procedimento permitiu que conhecêssemos o licor tal como o conhecemos hoje. Aos monges, devemos a descoberta dos licores mais famosos do mundo. Conta-nos a história que, no século XVI, aproximadamente no ano de 1510, foi criado pelo monge beneditino D. Bernardo Unicelli, na cidade de Fechamp, na França, o famoso licor Bennediettine, composto por vinte e sete ervas. Aos monges cartusianos, devemos a descoberta do licor Cartreuse, composto por 130 ervas diferente, conhecido internacionalmente por sua leveza e sabor. Também o Amaretto, preparado a base de amêndoas doces e mel, está entre os três licores mais conhecidos e requisitados do mundo. Todas essas receitas são guardadas até hoje sob sete chaves. No Brasil, nas belas fazendas dos tempos imperiais, bás e mucamas dos grandes senhores de engenho, fizeram descobertas de recitas extremamente saborosas, dadas não somente pela variedade de sabor o odor das frutas aqui encontradas, mas pela criatividade de nossas cozinheiras. Os Mitos Folclóricos Brasileiros como Protetores do Ecossistema por Daniel D’Andréa CURUPIRA Desde o início da humanidade, meio ambiente e cultura formaram uma unidade indivisível. Cuidados ambientais e educação faziam parte de uma visão totalizadora do mundo. George Sessions, citado por Fritjof Capra do livro “O Ponto de Mutação”, afirma: A nova realidade é uma visão ecológica num sentido que vai muito além das preocupações imediatas com a proteção ambiental. Para enfatizar esse significado mais profundo da ecologia, filósofos e cientistas começaram a fazer uma distinção entre ecologia profunda e ambientalismo profissional. Nossos caboclos, secularmente, acreditam na existência de espíritos protetores dos animais da fauna nativa, atualmente em perigo de extinção. Essas crenças derivam da transformação de antigas concepções da mitologia ameríndia. Embora existam numerosas entidades regionais e outras compartilhadas com os países sudamericanos que fazem divisa com o Brasil, talvez o Curupira seja o mais popular de todos eles e, ainda, o primeiro a ser descrito no velho continente, segundo reza uma carta de José de Anchieta, escrita em São Vicente, em 1560; corpo de menino, curu seria uma abreviatura de curumim e pira de corpo, segundo explica Luís Câmara Cascudo, em seu livro de “Geografia dos Mitos Brasileiros”. Nesse livro figura uma narrativa de Ermano Stradelli citada na revista do “Instituto Geográfico Brasileiro”, vol. 158, de 1928. O Curupira é a mãe do mato, o gênio tutelar da floresta, que se torna benéfico ou maléfico para os freqüentadores desta, segundo o próprio comportamento. Figuram-se como: um menino de cabelos vermelhos, peludo por todo o corpo e com a particularidade de ter os pés virados para trás. A mata e quanto nela habitam está debaixo de sua vigilância e é por via disso que antes das grandes trovoadas se ouve bater troncos das árvores e raízes das Samaumerias, para certificar-se de que podem resistir ao temperal e prevenir os moradores da mata do próximo perigo. Sob a sua guarda está a caça e é sempre propicio ao caçador que se limita a matar conforme as próprias necessidades. Ai de quem mata por gosto, fazendo estragos inúteis de quem persegue e mata fêmeas, especialmente quando prenhe quem estraga os pequeninos ainda novos! Para todos esses o Curupira é um inimigo terrível. Ás vezes vira-se caça, a qual nunca pode ser alcançada, mas que nunca foge aos olhos sequiosos do caçador, que com a esperança de alcança-lo, deixa-se levar fora do caminho, onde o deixa miseravelmente perdido, como o rastro por onde veio desmanchado (...). Daniel D’Andréa: Educador recolhe e investiga contos e lendas brasileiras e viabiliza o aproveitamento desse material em projetos educacionais e oficinas pedagógicas que coordena. Informações: (11) 5602-5327 OUTUBRO por George Seddon Diversas plantas novas florecem este mês. A mais espetacular é a Acacia armata, a mimosa. Cujas flores amarelas e aveludadas contrastam magnificamente com a folhagem escura. O Plumbago capensis orna-se de flores azul-pálidas, que continuarão a aparecer durante meses. A Peperômia caperata também inicia seu longo período de floração. Com a condição de que tenha se beneficiado com o calor de que necessita. O período de repouso dos cactos termina este mês ou no máximo em novembro. Retome, mas progressivamente, o ritmo estival de regas: no inicio dê-lhes bem pouca água. A estação da multiplicação está no auge. As folhas de Saintpaulia ionantha enraízam sem recurso ao caixote aquecido próprio para multiplicação. É igualmente o momento de retirar estacas da Impatiens wallearana “Holstii” e da Hydrangea (utilize os renovos desprovidos de botões florais). As estacas dos renovos basais da Aphelandra squarrosa têm necessidade de uma temperatura de 18º para enraizar-se. Divida a Aspidistra eliator. Adube vasos, canteiros e plantas perenes regularmente. Nunca adube uma planta seca; regue bem antes e após a adubação. Semeie o Senecio cruentus para que ele floresça no inverno e na primavera, assim como a Freesia, que dá flores no fim de seis meses aproximadamente. As sementes de cactos exigem uma temperatura de 24º. Semeie a Fatsia japonica, que se multiplica igualmente por estacas. A Clívia miniata pode estar em flores, e o Agapanthus começa a florir, estendendo a floração até janeiro. Ambos podem ser reenvasados, mas só o faça se o vaso estiver realmente demasiado pequeno para eles, pois florescem melhor em vasos pequenos. A Rechsteineria cardialis e a Rechsteineria leucotricha devem ser reenvasados. Estão em flor, entre outras: álisso, camarão, clívia, copo-de-leite, ervilha-de-cheiro, flamboiã-de jardim, flor-de-são-miguel, gardênia, goivo, íris, jacarandá, papoula e resedá. Pode a Ardisia crispa para conserva-lhe uma forma agradável e corte a Hedera helix para que ela se ramifique. Transfira o Rhododendron simsii para um aposento fresco e sombreado. Antes dos primeiros dias quentes, verifique se suas plantas não estão doentes ou com parasitas. Cuide sem demora dos espécimes atingidos e coloque-os de quarentena. Lave as folhagens das plantas de folhas cerosas e limpe os vidros das janelas, principalmente se você mora na cidade (a sujeira impede que a luz passe mais do que se imagina). SETEMBRO por George Seddon Algumas flores espetaculares vão florescer este mês. A Clivia miniata entra em seu período de floração, produzindo umbelas de dez ou mais flores vermelho-alaranjadas. O mesmo acontece com a Zantedeschia arthiopica e a Hymenocallis calathina, se foram beneficiadas com suficiente calor. Em comparação a essas espécies, o Jasminum mesnyi, com suas flores amarelas, parece bem modesto. Florescem igualmente duas excelentes orquídeas: a Lycaste deppei, que produz um belo efeito e tem perfume acentuado, dá flores em diferentes épocas, mas fica especialmente bela em setembro e outubro, e o Cymbidium x Rosanna “Pinkie”, que ostenta de dez a quarenta flores em seus longos eixos pendentes. Não passe o mês a admirar suas plantas: há muito o que fazer. Estimule a floração da Campanula isophylla dando-lhe mais calor e água. Plante separadamente os tubérculos da Gloriosa rothschildiana em vasos de 15 cm de diamentro, assim como os da Achimenes logiflora e da Sinningia speciosa (a gloxinia). Plante os bulbos da Zephyranthes grandiflora e os rizomas da Smithiana zebrina. Plante ou reenvase o Agapanthus campanulatus e o Plumbago capensis; reenvase o Adiantum capillus-veneris. Retire as estacas com brotos dos ramos novos da Passiflora caerulea, assim como dos renovos basais da Campanula isophylla. Divida os grandes Streptocarpus por ocasião de reenvasamento. Semeie a Begonia semperflorens, o Capsicum annuum ea Thunbergia alata, a Asclepias curassavica e a Grevillea robusta (esta última dará uma planta de tamanho razoável em menos de dois anos). Examine todas as samambaias e retire as frondes estioladas. Quando as folhas do Cyclamen persicum começarem a amarelecer, pare de regar e deixe o bulbo secar antes de armazenar o vaso na obscuridade. Viajando com Raul por Renata Pasqua As viagens que Raul programa tem uma “pitada” de idéias e novas plantas, depois algumas “colheres cheias” de comida deliciosa, “doses” de uma boa história e finaliza com belas imagens... Essas fotos que tenho o prazer de registrar aqui são plantas que apreciamos e ao mesmo tempo fomos adquirindo espécies raras “garimpadas” pelo caminho. A primeira vez que vi o clerodendron cotonete foi no Sítio Santo Antonio da Bica de Roberto Burle Marx, em Guaratiba, Rio de Janeiro; comprei e trouxe para São Paulo uma muda, não resisti. Tempo depois, comprei mais quatro mudas e plantei formando o conjunto que mostro a seguir. Sua folha é verde-escura na parte de cima e vinho na parte de baixo, onde contrastando com sua inflorescência em forma de bouquet com vinte centímetros de diâmetro, forma inúmeras flores rosa e botões em forma de cotonete, daí o nome popular clerodendron cotonete. Nativo das Filipinas adapta-se em regiões tropicais e sub-tropicais, muito ornamental quando em flor no final do inverno, ou mesmo sem elas valorizando suas folhas. O florescimento é mais intenso quando plantado a pleno sol, seu porte varia de três a sete metros de altura. O clerodendron é uma planta de fácil propagação, pode ser feita por estacas ou sementes que brotam ao redor da planta mãe. Nome Científico: CLERODENDRON QUADRIOCULARE; Nome Popular: CLERODENDRON COTONETE; Família: VERBENACEAE; Clima: Tropical e Sub-tropical; Luminosidade: pleno sol ou meia sombra; Porte: de 3 a 7 metros de altura; Época de Floração: Inverno; Datas Comemorativas Independência do Brasil por Raul Cânovas No dia 7 de setembro de 1822, um rapaz altaneiro de vinte e quatro anos, gritava que o Brasil estava livre de sua dependência com Portugal; vocês sabem, ele não era um moço comum, era um verdadeiro príncipe que tinha herdado um nobre título, devido a morte de seu irmão mais velho Dom Antônio, que morreu quando ele, Dom Pedro, tinha apenas três ou quatro anos. Dom Pedro teve uma infância aparentemente feliz no Palácio de Queluz, a caminho de Lisboa para Sintra onde brincava correndo pelos jardins desenhados pelo artista francês, Jean-Baptiste Robillion. Lá tinha de tudo um pouco, lagos, labirintos, estátuas mitológicas que davam medo, canais que serviam para conduzir água do Rio Jamor, e muitos pomares, como de laranjeiras, amendoeiras, damasqueiros e macieiras que dão frutos até hoje e são famosos pelo seu sabor delicioso. A infância e os jogos duraram pouco, porque ainda menino veio para América, junto com toda a côrte e também muito novo casou-se e acumulou uma série de obrigações. Dizem que embora sua vida tenha sido curta, já que morrera com apenas trinta e seis anos, viveu de maneira agitada e aventureira; teve dois casamentos e vários romances que lhe deram dezoito filhos, amigos célebres, como no caso de Chalaça, quase um conselheiro oficial, amava a música e a boa comida, assim um verdadeiro bon vivant, camarada e brincalhão, sem perder a elegância. Hoje, depois de cento e oitenta e três anos, os ipês por aqui continuam amarelos, com a mesma cor que talvez inspirou o losango da bandeira, é verdade que milhares foram derrubados deixando o verde menos verde, infelizmente isso faz parte da Ordem e do Progresso. Mas seria tão bom se aproveitássemos este dia chuvoso e calmo para lembrarmos um pouco mais da ousadia e da coragem daquele moço, que proclamou a independência e junto com ela a possibilidade de hoje sermos livres, para escolhermos nosso destino político. Patriotismo é muito mais que orgulho daquele que torce, é o respeito pelos que lutaram por um Brasil livre com autonomia para tomar suas próprias decisões. Vem Cá Manacá por Raul Cânovas Vem cá manacá, não te ocultes mais, foge do caleidoscópio bem cedinho, de manhã Vem cá manacá, me dá cinco pétalas para me fantasiar com branco e com grená Vem cá manacá, façamos um Carnaval despetalando máscaras do jauareté-taiá Fica comigo minha linda cuipeúna, me abraça com paixão de brasa, não deixe que nada faça e com tuas mil flores... apenas me perfuma! 08 de março - Dia Internacional da mulher por Raul Cânovas No dia oito de março é comemorado o Dia Internacional de Mulher, talvez seja por isso que inevitavelmente lembramos de algumas personagens de nossas vidas, mãe, filhas, irmãs, esposa, heroínas que em nossa infância alimentavam a fome de aventuras, como a da Mulher Maravilha e outras que ingenuamente nos fascinavam, como a Branca de Neve e mais tarde descobrimos figuras que por trás da aparente inocência escondiam uma incrível agudeza de espírito, como no caso de Mafalda uma fantástica personagem de histórias em quadrinhos. Quando adolescentes, babávamos com Jane Fonda, Sophia Loren e Jeane Moreau nas matinês de domingo. Pessoalmente tive algumas personalidades ilustres, como o caso de Gertrude Jekyll, uma paisagista inglesa admirável que deixou mais de trezentos jardins projetados, além de ter sido a mentora da famosa revista House and Garden (Casa e Jardim) que é editada há muitos anos. Neste mundo que durante séculos ou milênios foi dirigido por homens, que administraram conflitos, discussões e até guerras, é justamente em dias como este que pensamos como foi essencial a presença feminina, mesmo condenada a um segundo plano para que a humanidade não explodisse no meio dessas lutas perversas, onde se invocavam deuses castigadores ou ditadores megalomaníacos. Hoje fico um pouco triste pensando... como seria bom um mundo onde se venerasse mais as Minervas, as Vênus e as Proserpinas, deusas encantadoras e sábias. Imagino como tudo poderia ter sido diferente se tivéssemos prestado mais atenção ao canto das Sereias. Quem sabe algum dia, nós homens poderosos cedamos um pouco mais de espaço a mulher para que ela consiga aquilo que não fomos capazes de alcançar, e aproveitando esse dia para que possamos imaginar um Dali reencarnado, servindo de inspiração para sua amada musa Gala... Assim, espero nunca mais ouvir dizer que por trás de um grande homem, sempre há uma grande mulher (homens e mulheres andam juntos). Semana Santa - A Palmeira e o Sagrado por Raul Cânovas Em um evangelho apócrifo, ou seja, sem autenticidade comprovada e, portanto, não incluído pela Igreja no Cânon das Escrituras autênticas, mas que apesar disso mostra uma devoção católica profunda, se lê em francês antigo, no capítulo titulado “Histoyre de La Nativité de Marie” um texto encantador que começa mais ou menos assim: a Virgem Maria, viajando pelo deserto estava cansada, o sol era muito forte e por isso o calor era intenso, derepente viu uma robusta tamareira que podia lhe oferecer sombra e um descanso, que repararia suas forças; foi aí que interromperam a viagem e José pegou Maria ajudando-a a desmontar do burrinho; assim que colocou os pés no chão, alçou o olhar para a copa da palmeira e percebeu que estava carregada de tâmaras, então falou para José: “Como seria bom saciar a fome com frutos tão doces!”. Jesus, pequenino no colo de sua mãe pediu ao imenso Phoenix, que deveria ter quase 30 m de altura, que se inclinasse para que sua mãe pudesse se servir das tâmaras à vontade; imediatamente a planta curvou seu tronco e permaneceu assim, como em uma reverência a Mãe das mães, até que Maria saciou sua vontade. Passados alguns minutos o pequeno Messias, percebendo que a tamareira continuava inclinada, como imitando um devoto ajoelhado, disse: “Ergue tua copa”, e a palmeira aprumou-se. A seguir, depois desse ato de quase beatitude por parte da planta, o Mestre a abençoou e a escolheu como símbolo de eterna salvação para os moribundos e, ainda prometeu que faria com uma folha de palma, a entrada triunfal em Jerusalém. Esta narrativa pode ser lida também na “História Eclesiástica”, do autor grego Sozomeno, popular no Mediterrâneo, especialmente na Sicília e nos antigos Estados Pontifícios. Um Natal enfeitado de ilusões por Raul Cânovas Lá estava ele mais uma vez, no meio do jardim, cercado pelas caixas de enfeites que acumularam um fino pó, enquanto esperaram no sótão por mais um dezembro; tinha um pouco de tudo: bolas coloridas e brilhantes, penduricalhos que pareciam feitos com cetim, adornos chineses e até fitas metalizadas que cuidadosamente enroladas, resistiam ano após ano, o solene ofício de decorar o pinheiro de natal, permanecendo tão bem conservadas que sempre pareciam estreantes. Já ia pegar a escada (o pinheiro tinha crescido muito), quando ouviu uma voz aguda e penetrante que parecia surgir do nada perguntando: - O que você fez de janeiro para cá, alem de esperar pela chuva? - Uma outra voz menos estridente respondeu: - Aguardei o dissolvimento das nuvens, porque não fiquei satisfeito apenas com o orvalho. - Mas de que valeu essa água toda. Reiterou a primeira voz – Se em seguida se evaporou? - Eu usei uma parte para hidratar minhas energias. Diz o interlocutor. O homem um pouco assustado e bastante receoso tentava identificar a procedência da conversa, que continuava intensa entre as partes. - Energias? Para que energias? - Para inspirar minha robustez. - E para que serve esse vigor todo? - Para se ter certeza de ser capaz. - Capaz? - É, e também corajoso, porque apesar de viver em um jardim é preciso fazer alguma coisa, algo transcendente. - Uma espécie de magia? - Pois é, às vezes é um pouco enfadonho isso de fabricar milhares de pitangas todos os anos. - Você faz pitangas? - Você não notou? - Desculpe sempre estive muito ocupada com minha florada. - Obrigado pelo perfume. - Imagine, não custa nada. - Mas ele alimenta meus devaneios. - Algum dia você consegue, algum dia quem sabe, vou saborear a tua polpa. - Tchau madressilva. - Adeus pitangueira. O homem virou na cama e continuou sonhando com um Natal enfeitado de ilusões. Esperou o dia seguinte para pegar a escada. As Origens do Natal por Raul Cânovas A comemoração de Natal começou no ano de 336 d.C., em Roma, onde foi celebrado o primeiro Natale Domini, mas na realidade, 62 anos antes, durante o Império de Aureliano começou a ser feito o Natalis Solis Invicti, que quer dizer Natal do Sol Invencível, que era uma festa mitríaca. Mitras era o espírito da luz divina; o símbolo solar era muito importante para os europeus primitivos, o Sol parecia enfraquecer e sua luz diminuía entre os meses de dezembro e março por causa do inverno, por isso os povos pagãos faziam festas e cultos religiosos, marcando a comemoração do solstício no dia 25 de dezembro, para que o Sol não morresse, e sim o contrário, que ele renascesse na primavera, trazendo novamente o seu calor para o homem e para sua terra. Os romanos naquela época acendiam fogueiras, erguiam altares nas casas e enfeitavam com flores e galhos de árvores as ruas e templos, tentando agradar de todas as formas possíveis os deuses de sua mitologia. Isto, naturalmente, levou a Igreja Romana a contrapor-lhes a festa cristã do Natale de Cristo, que segundo eles afirmavam, era o verdadeiro Sol da Justiça. Foi assim que a festa litúrgica do Natal começou a ser celebrada, também na mesma data pelos cristãos, e esta festa quase de imediato começou a se propagar por todo Ocidente, não tardando com o correr dos tempos, a ser adotada por todas as igrejas cristãs orientais. Com a conversão cada vez maior dos pagãos ao cristianismo, a igreja não vendo como acabar com aquelas comemorações usou de sua estratégia para transformar essas festas pagãs em cerimônias litúrgicas cristãs. Desta forma a comemoração do dia 25 de dezembro, que era dedicada ao Deus Sol, passava a ser a festa do nascimento do menino Jesus, e foi o Imperador Constantino, já no final de seu mandato, que determinou que esta data devia ser celebrada em todo o Império Romano. Contam, que ele tomou essa decisão na época da construção de uma Basílica sob o túmulo de São Pedro, na própria colina do Vaticano, justamente no local onde se faziam os cultos solares. Mais tarde, o Papa Júlio I oficializou esta data incluindo-a no calendário Juliano Dia dos Namorados por Raul Cânovas O Deus do AMOR Ele nasceu ao final de um banquete, feito em um lugar conhecido como “Jardim dos Deuses” Sua mãe Afrodite, que protegia as paixões e também os jardins, olhava para ele com o prazer de quem contempla não apenas o mais belo dos deuses imortais, mas especialmente alguém que possuía a força e a energia. Eros aparece como um menino louro, com asas, que jamais cresce, que nunca atinge a maturidade; afinal de contas o amor apaixonado nunca atinge a idade da razão, ele é carente e procura desesperadamente a plenitude. É como um jardim que se renova eternamente. Finados por Raul Cânovas Saudade Vocês sabiam que existe uma planta que popularmente é conhecida como saudade? Antigamente, ela, que também é chamada de scabiosa ou flor-de-viúva, era usada para compor as coroas que ficavam com tonalidades arroxeadas, dando sempre ares solenes aos velórios e funerais. Mas não é dessa saudade que quero falar, e sim da lembrança um pouco nostálgica, de coisas distantes que alguma vez fizeram parte do nosso cotidiano; as recordações muitas vezes melancólicas são também de pessoas que amamos muito, e que nestes dias, são tão lembradas quando contemplamos um canteiro de saudades em flor. Islamismo No Alcorão, livro sagrado do islamismo, relata-se que Israfel procurou a “Terra de sete cores” para criar o primeiro homem; mas a Terra, talvez temerosa de ficar esgotada fornecendo indefinidamente a matéria prima para dar a vida e a forma de novas mulheres e de novos homens, procurou Alá, e pediu com humildade, em tom de súplica, que lhe fosse devolvida essa substância, essa argila que servira para uma existência temporal, na hora da morte. Alá infinitamente justo, determinou então que a partir desse momento, os corpos dos mortos deveriam ser enterrados, e pediu a Israfel para ficar ao lado de seu trono, eliminando da árvore do mundo as folhas onde estão escritos os nomes dos que devem morrer. É por isso que as folhas caem. Tánatos Para muitos a morte é uma tragédia, o fim da existência, o deixar de ser. No mundo vegetal, onde vivem as árvores e todas as outras plantas não existe esse conceito de perda, de extinção. Lá na floresta, há uma contínua transformação; a semente dá origem a uma árvore, que por sua vez, floresce para permitir que os frutos se abram soltando mais sementes. Talvez seja por isso que Tánatos, o deus da morte, não tem aspecto sinistro, ele era sempre representado como um jovem, com uma tocha invertida em uma das mãos e uma coroa de flores na outra. “Mors janua vita” (a morte é porta da vida), pelo menos no mundo vegetal. O deus do sono O gênio que personifica a morte tinha um irmão que se chamava Hipnos, os dois, Hipnos e Tánatos, eram filhos da noite. E enquanto um se incumbia de derramar as sombras sobre os olhos do moribundo, o outro descansava apoiado no tronco de uma árvore. Tinha como missão sair pelos campos levando um carrinho de mão para colher papoulas e dorme-marias, que serviriam para fazer descansar os homens. Hipnos imaginava que as pessoas poderiam cair no sono, sumindo momentaneamente como as tulipas, os jacintos e os narcisos, e mais tarde ressuscitar; não acreditava no término absoluto de qualquer coisa de positivo, mas sim na passagem de um nível para um outro superior. O que esperar da nossa Metrópole por Raul Cânovas Todos os 25 de janeiro comemoramos o aniversário desta cidade que nos dá moradia, comemorar é força de expressão, porque ultimamente o paulistano dedica esse dia para o lazer; um lazer feito na maioria das vezes longe de São Paulo. Estão bastante distantes esses dias em que as pessoas saiam para a rua festejando com orgulho a data em que um padre que se chamava Manuel da Nóbrega, fundara o povoado de São Paulo de Piratininga; talvez porque a correria do dia a dia seja muito intensa e estamos esquecendo um momento importante de nossa história, e um povo que não lembra de seu passado, dificilmente vai ter alicerces para um futuro consistente. Não basta acompanhar apenas os índices econômicos, discutir as fusões das mega-empresas ou investigar o melhor investimento visando um melhor retorno financeiro; é muito importante também saber mais sobre esta cidade que começou timidamente como uma vila e que demorou mais de cento e cinqüenta anos para se tornar um município, interar-se, por exemplo, que junto com aqueles pioneiros tinha um outro jesuíta, quase menino, que se chamava José de Anchieta que improvisava missas e que tentava ensinar um pouco de música sacra composta por Giovanni Palestrina; interessante que do outro lado do mundo, no Japão, São Francisco Xavier convertia cento e cinqüenta mil pessoas ao cristianismo, eram muitos os padres que acompanhavam os navegantes, o Papa que na época era Júlio III, tentava durante o Concílio de Trento, enfrentar os grandes reformadores, como Lutero, e incentivava o clero a participar das grandes descobertas. Lá no Japão, São Francisco Xavier se deslumbra com os jardins criados por Seshu, Sesson e Soami, três paisagistas fortemente influenciados pela China, a mesma China que chorava oitocentos mil mortos, resultado do maior terremoto dos últimos séculos. Era um momento de grande agitação no mundo, a Espanha estava em guerra com a França, Maria Tudor reinava na Inglaterra e Ivão o terrível, na Rússia. Os reis e rainhas financiavam expedições por terra e por mar, para explorar e descobrir lugares distantes e desconhecidos; ainda não existia o calendário gregoriano e apesar das investigações de Copérnico: Saturno, Netuno, Urano e Plutão não tinham sido descobertos, mas a tulipa, meio que por acaso foi encontrada nos campos da Turquia e levada para Holanda para alegria não apenas dos holandeses, mas também de todos aqueles que gostam de flores. Tenho certeza que São Paulo tem pela frente um destino de grandes realizações, mesmo porque não dá para negar tudo aquilo que já foi feito, mas também acredito que a melhor forma de impulsionar a sorte de nossa cidade é devolvendo à ela um pouco do que lhe arrancamos: o ar puro, a paisagem deslumbrante, os rios de águas transparentes, enfim, tudo aquilo que deslumbrava os colonizadores há quatro séculos e que hoje é raro ou inexistente, e a melhor forma de resgatar esses atributos de antigamente é mostrando nosso carinho, conhecendo melhor os fatos e os acontecimentos que formaram a personalidade de nossa cidade, talvez dessa maneira consigamos entendê-la melhor e possamos viver dentro dela mais felizes, andando por ruas arborizadas e praças floridas sem a necessidade de refugiarmos dentro de shoppings, fugindo das mazelas que inconscientemente ajudamos construir. Páscoa por Raul Cânovas Analisando a Bíblia, podemos perceber a importância no mundo antigo o ritual que culminava geralmente em um sacrifício; parece que essa prática marcava a vida dos homens naquela época remota quando, segundo o hábito dos povos nômades ou seminômades, se faziam oferendas de animais ou de produtos da terra que eram imolados. Não existia um lugar predeterminado para esse tipo de cerimônia, as coisas aconteciam no lugar e no momento em que Deus se manifestava e o chefe do clã ou líder da comunidade levantava um altar utilizando quando possível, folhas de palmeira ou acácia para poder oficiar o culto; naquela época nem existiam ministros ou sacerdotes para desempenhar esta tarefa. Mais tarde, já no Egito, os semitas queimavam por inteiro, um cordeiro, touro ou o cabrito, às vezes uma ave, para significar a entrega total e irreversível; também costumavam fazer uma espécie de refeição sagrada, onde o fiel comia e bebia diante de Javé deixando uma parte do animal como oferenda. O bode também era usado: era apedrejado, expulso da cidade e destinado a morrer no deserto. Carregava assim, o pecado dos homens para bem longe. Mas no caso de Jesus, Ele, livremente se coloca no lugar daqueles que cometeram toda sorte de erros, delitos e injúrias. Sem pedir nada em troca, se entrega apaixonado dando sua vida, consagrando-se pela humanidade para que a humanidade seja também redimida. Portanto, Jesus não morreu simplesmente vítima da violência brutal daqueles que não o compreenderam. Com Ele, quem sabe, começa a se realizar o plano de salvar o mundo do caos e da ignorância. Hoje, 2000 anos depois, é no mínimo interessante até para aqueles que não participam do mundo cristão observar este episódio com atenção, e até mesmo eu diria, deixando de lado a conotação, às vezes fanática de alguns grupos religiosos mais fechados. Meditar e concluir que cada um de nós deve assumir sua parte do Golgotá, não morrendo na cruz, e sim começando uma caminhada, sem dúvida muito longa, mas também muito florida que nos levará novamente para aquele paraíso do qual fomos expulsos por causa do nosso próprio descaso, de nossa incompreensão, da inveja, de todas aqueles defeitos e preconceitos que a igreja chama de pecado e que na realidade, a meu modo de ver, é ignorância e falta de amor não apenas para com o próximo, mas fundamentalmente para com nós mesmos. Dicas de Manutenção VERÃO - Dicas de Manutenção por Raul Cânovas Grama: nunca apare a grama quando estiver molhada e cuide para que as facas do cortador (manual, elétrico ou à gasolina) estejam afiadas, caso contrário as folhas serão mastigada facilitando a ocorrência de doenças. Repita a adubação com uréia. Trepadeiras: devem ser, quando escandentes ou volúveis, conduzidas com amarrilhos para subirem nas treliças e pérgulas. Floríferas: a maria-sem-vergonha, cravinha, cóleus, tagetes e dálias são semeadas nesta estação e as espirradeiras podem ser reproduzidas por estacas. Húmus de minhoca pode ser aplicado nos canteiros junto com substrato, para melhor incorporação ao solo, afofe a terra com uma enchadinha e use 2 kg de cada por m². Regas: devem ser abundantes, por causa das altas temperaturas a transpiração é maior. Pragas: com tanta chuva e calor as plantas estão repletas de brotos tenros e atraentes para os pulgões, que podem ser exterminados com calda de fumo, cochonilhas desaparecem usando-se água e sabão ou pulverizando-se com óleo mineral. Plantas de interior: nas regiões frias, levar os vasos para o ar livre em local de meia sombra para as plantas se revitalizarem. Ervas aromáticas: é a estação indicada para secá-las, mas cuidado, na sombra e protegidas da umidade. Texto extraído do livro “Um jardim para sempre – manual prático para manutenção de jardins” do paisagista Raul Cânovas. Apartamentos de Cobertura por Raul Cânovas Nas grandes cidades é muito comum a tendência de criar no último andar dos edifícios um projeto diferenciado, as coberturas apresentam uma grande vantagem pelo fato de serem praticamente casas e estarem localizadas em regiões muito bem servidas em termos de comércio e de serviços. Quando arquitetonicamente bem planejadas, elas reúnem nas áreas externas, espaços destinados a uma boa churrasqueira, a uma piscina, pequena, sem dúvida, mas muito bem aproveitada nos dias de verão e a um jardim que se ergue como um oásis em meio a tanto concreto. Antigamente, o último andar era, geralmente, reservado para o zelador, e se deixava uma área a céu aberto para estender roupa lavada, que secava exposta ao sol. Esse hábito que era bastante comum naqueles primeiros prédios do Brás, da Mooca, dos Campos Elíseos, talvez tenha sido trazido de Roma, de Berlim ou de Paris no início do século, lá as pessoas também davam um destino mais ou menos parecido ao último andar dos prédios, os quais tinham, no máximo, três ou quatro andares. Todavia com o correr dos anos e – particularmente após a Segunda Guerra Mundial – começou um processo de verticalização cada vez mais intenso, especialmente em cidades onde a Revolução Industrial se impunha mais intensamente, como foi o caso de São Paulo. Por essa época é que as pessoas começaram a descobrir que morar em lugares altos trazia uma série de benefícios como, por exemplo, um domínio maior da paisagem, bastante sol, menos barulho e até a possibilidade de se ter vasos com plantas, inspirando-se um pouco nos terraços de Paris e Roma. O problema mais sério na construção de espaços paisagísticos em coberturas diz respeito às plantas do jardim, muitas não vingam, outras ficam com uma aparência triste e meio desbotada. Por isso, as plantas a serem usadas para compor o jardim devem gostar de sol pleno e vento, ou seja, tem que possuir uma rusticidade que lhes permita suportar, quase com uma certa indiferença, as mudanças bruscas de temperaturas e – mais importante ainda – não podem ser plantas que possuam raízes muito profundas, ou agressivas. Apesar dessas limitações é possível projetar um jardim obedecendo a um estilo determinado, e isso podendo inclusive contar com árvores como murtas, magnólias de flores roxas e mesmo algumas frutíferas, que com o passar do tempo podem proporcionar uma sombra muito agradável. A impermeabilização e as camadas drenantes devem ser feitas antes do aterro dos canteiros, para evitar problemas graves de infiltrações. Contra ao que normalmente se acredita, o jardim não causa umidade, nem vazamentos; mas, ao contrário, a terra funciona como um isolante termo-acústico que minimiza enormemente as mudanças climáticas. A fim de que possamos compreender isso melhor, imaginemos uma laje nua, exposta às intempéries – por volta das sete horas – a temperatura no mês de agosto pode baixar até Zero graus centígrados – se por qualquer motivo o inverno passar por um daqueles veranicos, tão comuns no sudeste – as duas da tarde essa laje vai estar bastante quente e se logo em seguida chover a temperatura pode cair bruscamente outra vez; com todas essas mudanças é lógico que essa superfície sofra dilatações e, como conseqüência, acabe apresentando rachaduras. Por isso é aconselhável a construção de um jardim por cima das lajes, desde que se tome as devidas precauções, a durabilidade das estruturas de concreto tende a aumentar e não a diminuir. Mesmo não dispondo de um grande espaço, para um jardim, podemos contemplar de um apartamento de cobertura uma paisagem deslumbrante. Espécies próprias em apartamentos de cobertura nos trópicos Relacionamos a seguir as espécies vegetais que melhor se desenvolvem nas regiões tropicais do planeta em terraços e apartamentos de cobertura em geral. Então omitidas nessa relação aquelas cujas raízes são agressivas ou seu tamanho é incompatível com áreas menores. Árvores Acácia podaliriaefolia Aglaia odorata Bauhinia galpinii Callistenum viminalis Bixa orellana Cássia leptophylla Clusia rosea Ceasalpinia pulcherrima Erythrina crista-galli Cecropia pachystachya Erythrina speciosa Hybiscus pernambucensis Eugenia sprengelii Lagestroemia indica Stifftia crysantha Ligustrum sinensis Laurus nobilis Magnólia soulengiana Murraya paniculata Plumerias Myrtus communis Palmeiras, Falsas Palmeiras e Cycas Areca trianda Caryota mitis Beucarnea recurvata Dypis lutescens Cycas revoluta Encephalartos lehmannii Dracena arborea Iuccas Rhapis humilis Livistona chinensis Sabal minor Phoenix roebelinii Syagrus flexuosa Sabal marítima Trachycarpus fortunei Cordyline australis Chamaerops humilis Árvores Frutíferas Byrsonima crassifólia murici Citrus mitis laranjinha Campomanesia phaea cambuci Eugenia uniflora pitanga Eugenia pyriformis uvaia Eugenia ivolucrata cereja-do-rio-grande Eugenia tomentosa cabeludinha Fícus carica figueira Feijoa sellowiana feijoa Hancornia speciosa mangaba Fortunella margarita kinkan Morus nigra amora Punica granatum romã Psidium cattleianum araçá amarelo Malpighia glabra acerola Myrciaria dúbia camu-camu Arbustos Floríferos Abelia grandiflora Beloperome guttata Ardisia crenata Hibiscus rosa-sinensis Calliandras Mussaendas Ixoras Nerium oleander Lantana camara Osmanthus fragans Leea coccinea Pachystachys lutea Pittosporum tobira “Variegatum” Rhododendron Senna alata Strelitzia reginae Strelitzia juncea Tibouchina moricandiana Arbustos com Folhagem Atrativa Bambusa gracilis Acalyphas Breynas Bambusa multiplex Cordilyne terminalis “baby ti” Cordiaeuns Phormiuns Lingustrum sinense “Variegatum” Trevesia palmata Pleomele reflexa “Variegata” Herbáceas Floríferas Acalypha reptans Ageratum houstonianum Alpinia purpurata Asystasia gangetica Barleria cristata Barleria repens Begônia semperflorens Bulbine frutescens Catharanthus roseus Evolvolus pusillus Evolvolus glomeratus Gazania rigens Justicia brandegeana Pelargonius Salvia splendens Pentas lanceolata Schizocentron elegans Tropaeolum majus Turnera ulmifolia Herbáceas com Folhagem Atrativa Aechmea blanchetiana Aechmea ornate Alternanthera dentata Ajugas Arachis repens Alternanthera ficoidea Centaurea gymnocarpa Ananas bracteatus striatus Helichrysum petiolatum Maranta arundinacea “Variegata” Nidularium marigoi Neoregelia compacta Santolina chamaecyparissus Neoregelia cruenta Syngonium podophyllum Pennisetum setaceum “cupreum” Tillandsia neglecta Quesnelia imbricata Tillandsia streptocarpa Senecio douglasii Tradescantia pallida Tradescantia spathacea Vriesea imperialis Tradescantia zebrina purpusii Vriesea cancuminis Vriesea neoglutinosa Vriesea penduliflora Miscanthus sinensis Ervas Medicinais de Uso Gastronômico Anthemis nobilis camomila Anethum graveolens aneto Artemisia vulgaris artemísia Baccharis sp. carqueja Cymbopogon citratus campim-cidreira Capsicum annuum conoides pimenta-de-jardim Foeniculum vulgare erva-doce Coleus barbatus boldo Melissa officinalis melissa Coriandrum sativum coentro Ocimum basilicum mangericão Equisetum arvense cavalinha Rosmarinus officinalis alecrim Menthus hortelã Satureja hortensis segurelha Origanum vulgari manjerona Taraxacum officinale dente-de-leão Ruta graveolens arruda Thymus vulgaris tomilho Salvia officinalis salvia Plantas Pendentes Abutilum megapotamicum Asparagus densiflorus sprengeri Muehlenbeckia complexa Hederas Pelarganium peltatum Jasminus mesnyi Petunia intergrifolia Polygonum capitum Russelia equisetiformis Vinca major “Variegata” Scindapsus aureus Trepadeiras Allamanda blanchetti Adenocalymna comosum Cereus grandiflorus Allamanda cathartica Clerodendron speciosum Antigonum leptopus Clerodendron thompsonae Clerodendron splendens Fícus radicans “Variegata” Combretum coccineum Ipomea purpurea Cryptocereus antonyanus Plumbago capensis Gloriosa rothschildiana Saritaea magnífica Ipomea horsfalliae Senecio confusus Jasminum nitidum Stephanotis floribunda Mansoa difficilis Turbina corymbosa Petrea subserrata Cactus e Suculentas Agaveas Aloes Aptenia cordifolia Callisia warszewicziana Echeverias Cereus Euphorbia candelabrum Crassulas Furcraea gigantea Euphorbia tirucallii Mammillaris Jatropha podogrica Opuntias Kalanchoes Sansevierias Lampranthus Seduns Portulacas Espécies não recomendadas por terem raízes agressivas Arbustos Tipo de Raíz Bambu-vara-de-pesca rasas Schefflera actinophylla rasas Schefflera arboricola rasas Viburnum tinus rasas Trepadeiras Tipo de Raiz Unha-de-gato rasas Árvores Tipo de Raíz Paineira-rosa rasas Flamboyant rasas Fícus rasas Magnólia branca e amarela profundas Plátano profundas Ipês profundas Outono - Dicas de Manutenção por Raul Cânovas Grama: com a estiagem o corte deve ser alto, 3 a 4 cm; com uma camada foliar maior a umidade se conserva melhor. Uma aplicação de 30g de cloreto de potássio por m² vai ajudar a grama a suportar as temperaturas baixas e a seca, além de proporcionar-lhe maior resistência contra as doenças. De 15 em 15 dias, passe um rastelo superficialmente, para retirar folhas e raízes mortas. Árvores: no pomar, pessegueiros, macieiras, pereiras e feijoas são as primeiras a serem podadas (os três primeiros após a queda das folhas). Floríferas: é época de semear prímulas, anêmonas, alissos e amores-perfeitos. A estação também é propícia para reproduzir jasmins-do-cabo, cóleus e gerânios por estaca, e multiplicar por divisão de touceira agapantos, gérberas, hemerocalis, clorifitos e violetas-de-cheiro. Doenças e pragas: nessa época podem aparecer aranhas imperceptíveis a olho nu, são ácaros que se instalam na parte inferior das folhas, enrolando suas bordas e deixando-as com o aspecto vítreo, até amarelarem e caírem. Uma pulverização com produtos a base de enxofre é a solução, pois ele tem ação antiparasitária e também combate o oídio que afeta: azaléias, resedás e calanchões, deixando suas folhas acinzentadas antes de caírem prematuramente, e os cancros que ferem os troncos das roseiras, gardênias e outros arbustos. Regas: neste período devem ser reduzidas. Ventos: checar postes de cerca, tutores e outros suportes, prevendo os ventos fortes típicos nesta época. Plantas de interior: as plantas mais sensíveis ao frio devem ser transladadas para um local iluminado e protegido. Texto extraído do livro "Um jardim para sempre - manual prático para manutenção de jardins" do paisagista Raul Cânovas. Inverno - Dicas de Manutenção por Raul Cânovas Grama: Se você mora em uma região afetada por geadas, faça no início da estação uma cobertura de terra peneirada com 1cm de espessura, mas se o clima for tropical ou subtropical, espere o mês de agosto para colocar a camada de cobertura, que deve ter 40% de terra vegetal, 30% de areia, 30% de substrato e também 1kg de húmus de minhoca, 200g de torta de mamona e 100g de farinha de ossos por m². Aproveite para fazer uma areação no gramado. Árvores e arbustos: Galhos e folhas secas fornecem ótima matéria orgânica, use esses detritos como cobertura nos canteiros. Ventos frios do Sul e do Sudeste aliados à seca prejudicam as plantas, intensifique as regas e não aplique fertilizante, respeitando os meses de dormência. Por outro lado, as acácias, ipês, magnólias, suinãs e canelinhas, e assim como as caliandras, Strelitzias, bicos-de-papagaio, viburno e azaléias florescem no inverno, portanto podem ser estimuladas com adubos ricos em fósforo, como esterco de galinha e o NPK na formula 04-14-08 ou 03-10-06 + micro da Turfafertil. Muitas plantas hibernam por completo, especialmente as caducifólias, portanto, ramos inúteis e mal formados devem ser suprimidos através de podas, utilizando tesouras ou serrotes apropriados. Floríferas: Os meses de frio são indicados para semear Myosotis, calendulas, gérberas, e verberas. No mês de agosto podem ser multiplicados por estacas: as hortênsias, sete-léguas, bicos-de-papagaio, gerânios, caliandras, dracenas, hibiscos, jasmim-amarelo e muitas outras. Texto extraído do livro "Um jardim para sempre - manual prático para manutenção de jardins" do paisagista Raul Cânovas. Primavera - Dicas de Manutenção por Raul Cânovas Grama: Estação é caracterizada pelo aumento da temperatura e também pelo início das chuvas, este fato favorece o aparecimento de doenças fúngicas no gramado: ferrugem, podridão-de-raízes, mancha-cinzentada-folha, queima, etc. para combatê-las faça três pulverizações com calda bordolesa, deixando um espaço de uma semana entre uma e outra aplicação; 8 g de uréia diluída em água e aplicada com regador, em cada m² vai deixá-la com um visual legal. Nesta época proliferam ervas que concorrem com as gramas ornamentais: trevo, picão-preto, grama-seda, serralha, dente-de-leão e até tiririca, que podem ser erradicadas arrancando uma a uma, com a raiz, utilizando uma ferramenta própria chamada firmino. O corte da grama pode ser mais baixo, deixando-a com 2 cm de altura. Árvores e Arbustos: Eles estão em franco desenvolvimento, por isso os meses de outubro, novembro e dezembro são favoráveis a fertilização mediante adubos foliares, especialmente aqueles cuja fórmula é enriquecida com micro-nutrientes. Floríferas: As flores murchas devem ser eliminadas para estimular o aparecimento das novas. Nesta época podem ser semeadas: begônias, portulucas e zínias e também reproduzir por estacas: camarões-vermelhos, alamandas, cinerárias, dracenas, brincos-de-princesa e camélias. Doenças fúngicas: Antracnose, ferrugem, midio, requeima e outras que atacam antúrios, gerânios, prímula e hortênsias podem ser combatidas com sulfato de cobre. Texto extraído do livro "Um jardim para sempre - manual prático para manutenção de jardins" do paisagista Raul Cânovas.